A morte escondida - Plataforma Media

A morte escondida

Um dos aspectos mais sinistros das pestes é a ausência de funerais. Como se não bastasse a morte higienizada dos nossos tempos, solitária e oculta nos hospitais, longe dos entes queridos, sequer às mãos cruas de um inimigo, de espada na mão por uma qualquer causa, subtraíram-nos ainda a possibilidade de um último adeus, de um rito de despedida, de uma homenagem final a quem parte.

Bem sei que o velório e os funerais nos horrorizam. Mas nós precisamos desse horror. É ele que nos faz sublinhar a vida que fica e nos impele por isso a viver mais, talvez mais intensamente. Não é por acaso que nas culturas tradicionais, pelo menos nalgumas, ao funeral se seguia uma festa, na qual se bebia, se dançava, eventualmente, se amava com uma estranha intensidade, talvez eivada de desespero, mas que na sua bruteza nos recompunha e curava a sociedade ferida pela perda.

A morte tem esse condão de a cada um lembrar a precaridade, a vacuidade dos nossos dilemas, das nossas acções, que só ganham sentido quando executadas em conjunto, num almejar. colectivo de eternidade. Não a de cada um mas a de todos, juntos, do que partilhamos e seguirá o seu caminho além de cada existência. A morte mostra-nos que só fazemos sentido no outro e com o outro. E, por isso, é importante que os vivos se juntem, na celebração da vida quando tristemente um de nós desaparece. E assim dizemos, sem nada dizer, uns aos outros: isto tem de continuar… isto tem de continuar…

A peste, na sua radicalidade, na imposição da distância, faz-nos compreender a importância das coisas, dos outros, dos ritos que, afinal, são mais fundamentais do que a “normalidade”, na sua cegueira apressada, nos faz geralmente esquecer

A sociedade contemporânea há muito que esconde a morte e lhe tem horror. Não apenas porque a morte não produz nada (pelo contrário, anula e esta é uma sociedade baseada no produtivismo, no fazer aparecer) mas, sobretudo, porque abre em cada um uma ferida narcísica, um lembrete do que nos irá irremediavelmente acontecer. E isso causa-nos um imenso desconforto. Indizível, intragável, insuportável. Tudo fazemos para a afastar do nosso quotidiano e apenas a banalizamos quando a sabemos fictícia, nos filmes, na televisão, nos jogos de vídeo.

Antigamente, a morte era muito mais presente. Todos tinham contacto com ela e muito cedo, porque a morte rondava os quotidianos era comum. As pessoas morriam em casa, no seio da família, crentes que se tratava de uma breve separação; não na solidão dos lares ou na distância asséptica do hospital, roídos de dúvidas quanto ao outro lado. Mas a peste retirou-nos o funeral, o velório, aquele último momento de despedida de um familiar, de um amigo, de um ser querido ou até de um inimigo. E, quer queiramos quer não, esse momento faz-nos falta para curar a nossa ferida.

A peste, na sua radicalidade, na imposição da distância, faz-nos compreender a importância das coisas, dos outros, dos ritos que, afinal, são mais fundamentais do que a “normalidade”, na sua cegueira apressada, nos faz geralmente esquecer.

*Diretor do jornal Hoje Macau

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