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Guerra Quente

Temos vindo a assistir ao desenrolar desta escalada de medidas e contramedidas comerciais entre os EUA e a China, inicialmente com alguma perplexidade, que, entretanto, se transformou numa espécie de novo “status quo”. Lembra o início da campanha de Donald Trump, em que parecia que ninguém o levava a sério, sendo mesmo ridicularizado pela intelligentsia americana. E lá foi ele, de erro em erro, de gaffe em gaffe, até à vitória final.

Muitos já criaram anticorpos ao Trumpismo e isso resulta em que tudo o que dali vem seja visto sempre com desconfiança e até desconsideração. Mas, como diria George W. Bush, um dos seus antecessores, make no mistake about it! Trump não dá ponto sem nó. Está mais que na altura de aprendermos a não subestimar a sua capacidade de avançar a agenda apregoada, mesmo debaixo de pressão, e de se desenvencilhar dos seus inimigos internos e externos.

O grande best seller de Trump, “The Art of the Deal”, editado originalmente em 1987, prescreve as suas tácticas para o sucesso nos negócios, onde pontificam conselhos como “Think Big”, “Use your leverage”, “Get the word out” e “Fight Back”. É a partir das suas experiências de homem de negócios de sucesso (?) que Trump quer governar a América e o Mundo. Já Platão refletia há mais de 2000 anos sobre as imperfeições do sistema democrático, em que nem sempre são os melhor preparados que chegam à liderança, mas apenas aqueles que são melhores a persuadir os outros a lhes entregar os seus votos.

Trump iniciou um jogo de negociação com a China, e, como bom negociador, tem objetivos delineados. Para os atingir está a criar o contexto que mais lhe interessa de acordo com a sua cartilha, mostrando a todos que a América não tem medo, que a América é o líder e que está em vantagem.

A China, que já começou a mostrar as suas garras, não apenas de grande economia mundial, mas de super-poder com aspirações a competir pela hegemonia mundial, tem vindo a lançar iniciativas concretas como a criação do Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB), a estratégia Belt and Road, o Fórum China-África, a modernização das suas forças armadas, nomeadamente com a inauguração de um grande porta-aviões de produção própria, sem esquecer o crescente investimento na aquisição de ativos estratégicos pelo mundo fora, apenas para mencionar alguns aspetos mais evidentes.

Os contornos do quadro estão bem desenhados. Falta ver com que tintas vai ser pintado.

Nesta tensão, própria do conflito de interesses entre grandes atores mundiais, o público vê apenas uma parte da história, apesar de ela se desenrolar mesmo à frente dos seus olhos. É um jogo de sombras, como nas marionetes tradicionais. Espiões que envenenam e são envenenados, reuniões secretas que depois deixam de o ser, exilados em embaixadas, e-mails de candidatos presidenciais roubados, um tio de um filho de um grande líder assassinado num aeroporto com um gás letal, crimes informáticos à escala internacional, fake news, enfim, um turbilhão que a todos confunde nesta era de preponderância tecnológica.

Creio que seja precisamente na liderança tecnológica que também esta guerra se vai decidir no longo prazo. É a mudança de paradigma que os EUA temem e que pode levar os pratos da balança a oscilar.

Os EUA, atual república impopular, partem na frente e usam a sua agressividade natural, de quem está habituado a mandar, a impor pela força, espicaçados ainda mais pelo estilo impetuoso, grandioso e improvisado de Trump. 

Por seu lado, a República Popular encontrou agora um obstáculo declarado e visível à persecução dos seus objetivos. Decerto não estaria à espera que os Americanos ficassem de braços cruzados a ver o seu competidor asiático a ganhar mais e mais poder, mas parece que não estava preparada para este tipo de bullying. Passada a surpresa, aguarda-se para ver se a postura reativa e acomodatícia de quem ainda acredita que pode voltar a um registo de cooperação se manterá.

A China está longe de estar encurralada. Porém, uma vez acossada, sentindo-se mais pressionada, é possível que reaja com algumas das tácticas que o grande General Sun Tzu, também há mais de 2000 anos, preconizou. A China deve limitar os custos de conflito e evitar os riscos de um embate direto, mas poderá simultaneamente acelerar ainda mais o ritmo das reformas e modernização do país, reforçar as suas alianças e assim criar maior adaptabilidade política, económica e tecnológica para responder eficazmente e com mais flexibilidade a um confronto que ultrapassa a mera esfera comercial e que está para durar.

A Guerra Fria acabou em 1991. Passados 27 anos, à medida que a temperatura entre estes dois países aumenta, uma nova página da história começa a ser escrita. Adivinha-se que a temperatura vá subir mais.

João Rato*  12.10.2018

* Gestor

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