Igreja chinesa a duas velocidades

por Arsenio Reis

A Igreja católica chinesa convive entre a modernidade do país e as amarras do sistema político que provoca conflitos na definição da hierarquia religiosa. Pequim e Roma não se entendem, mas os crentes convivem entre os dois mundos: o oficial e o oficioso.

No Seminário Católico da China, o maior convento de Pequim, a figura do Papa Francisco surge no hall de entrada de todos os edifícios, numa impressão em cartão, à escala humana, a dar as boas-vindas.

“Todos os católicos chineses gostariam que o Papa viesse à China”, conta à Lusa o seminarista Joseph, 28 anos e natural da província de Hebei, norte do país. “Como não pode, trazemo-lo nós aqui”. O desejo é reciproco: “Se dependesse de mim, eu iria à China amanhã”, disse já Francisco. Pelo meio, no entanto, ergue-se uma fronteira política difícil de ultrapassar.

Pequim e a Santa Sé não têm relações diplomáticas, divergindo sobretudo na nomeação dos bispos, com cada lado a reclamar para si esse direito. A China tem cerca de 12 milhões de católicos, mas as manifestações católicas no país são apenas permitidas no âmbito da Associação Patriótica Católica Chinesa, a igreja aprovada pelo Partido Comunista Chinês (PCC) e independente do Vaticano.

É aquele organismo que gere e financia os seminários chineses, onde são formados as freiras e padres locais, visando assegurar que os católicos do país funcionam “independentemente” de forças externas e “promovem o socialismo e patriotismo através da religião”.

A ordem partiu de Yu Zhengsheng, um dos membros do Comité Permanente do Politburo do PCC, a cúpula do poder na China, no final de um encontro entre o clero da Associação Patriótica Católica Chinesa, em dezembro passado. Yu apelou ainda às igrejas católicas do país para aderirem ao “socialismo com características chinesas” e adotarem “a direção correta de desenvolvimento”.

Em declarações à agência Lusa, um padre europeu radicado em Pequim explica que, “para as autoridades chinesas, o cristianismo representa um poder exterior, que está a coordenar coisas na China”. Isso, “para eles, é algo impensável”, nota.

O sacerdote, que à semelhança de dezenas de outros padres estrangeiros celebra missas em “igrejas clandestinas” e casas particulares por toda a China, diz que “uma das lutas do Governo chinês é exatamente ‘achinesar’ muitos dos conceitos e da lógica das religiões não-asiáticas”.

A arquitetura do Seminário Católico da China ilustra esse processo. A igreja, erguida em 2000, é uma construção circular em tijolo vermelho e com um triplo telhado de telhas azuis. Uma espécie de miniatura da Sala da Oração pelas Boas Colheitas, um dos principais templos de Pequim.

Apenas os vitrais e uma discreta cruz no topo distinguem esta construção de um qualquer templo taoista; no interior, o altar, elevado por um degrau, é adornado com uma mesa tradicional chinesa de madeira. Um pequeno e discreto crucifixo é a única imagem religiosa aqui exposta, mas há mais para além do que se vê à superfície.

Percorrendo as escadas situadas por detrás do altar e um longo corredor chega-se à cave da igreja, onde na quase total escuridão se vislumbram vultos de crentes ajoelhados, em torno de uma imagem de cristo com mais de um metro, erguida por detrás de um altar de pedra.

O seminarista Joseph sonha ser padre desde os dez anos. “Fiquei fascinado da primeira vez que vi um padre”, recorda. Gosta sobretudo de estudar a Bíblia e línguas estrangeiras, nomeadamente o inglês e o italiano. 

“Espero relacionar-me com quem vem de fora”, afirma, para pouco depois comentar: “O nosso convento é muito fechado, temos pouca interação com o mundo exterior, com outras culturas”.

Ainda assim, reconhece que Pequim tem hoje uma postura mais aberta para com a religião católica. “Depois de atingirem um bom nível de vida, as pessoas procuram algo mais”, afirma. “O Governo precisa também da religião”.

O académico italiano Francesco Sisci, professor na Universidade do Povo, em Pequim, constata o mesmo fenómeno: “Existem documentos oficiais [do PCC] a reconhecer o papel positivo que as pessoas religiosas podem desempenhar na promoção de uma ‘sociedade harmoniosa’”. O termo “sociedade harmoniosa” foi adotado pela liderança chinesa, à medida que a China transitou para um estilo de governação mais pragmático, em contraste com o espírito revolucionário que prevaleceu durante o reinado de Mao Zedong (1949-1976). Na época, o mote era a construção de uma “sociedade sem classes”.

O “papel dirigente” do PCC continua a ser, porém, um “princípio cardeal” e os membros da organização – mais de 80 milhões – e funcionários públicos estão proibidos de seguir qualquer religião. Muitos optam por celebrar a sua fé em igrejas clandestinas, que juram lealdade a Roma, arriscando represálias das autoridades.

É sobretudo para esses que o padre europeu entrevistado pela Lusa, e que prefere não ser identificado, prega o Evangelho. Este sacerdote permanece na China com visto de estudante e procura “não levantar ondas”.

“Enquanto noutros sítios encontram-se padres que falam de políticas e questões sociais, aqui esses assuntos não são nossos”, conta. Sempre que se desloca para fora de Pequim, fá-lo de comboio para uma cidade próxima do destino final, onde alguém o vai buscar de carro, como forma de despistar as autoridades.

“São coisas que temos de fazer para contornar. Foi o que nos disseram logo no início, porque o problema não seria para nós. Nós passamos uma ou duas noites numa prisão e somos expulsos do país”, conta. “O problema é para os cristãos que ficam cá”.

Para além de imporem “castigos ou prisão”, as autoridades encerram igrejas ou convertem-nas em centros comerciais, mantendo as cruzes e os vitrais, “só mesmo para humilhar”.

Informações veiculadas pela imprensa dão conta que a China e o Vaticano estão a negociar um acordo em que o Papa ordenaria os bispos a partir de uma lista de candidatos aprovados pelas autoridades chinesas. Seria a maior aproximação desde que Pequim e a Santa Sé romperam os laços diplomáticos, em 1951, depois de Pio XII excomungar os bispos designados por Pequim.

Joseph sonha ir a Roma ver Francisco e quando se sugere que, talvez um dia, o Papa venha a ser chinês, os seus olhos brilham. “Nunca se sabe, o mundo dá muitas voltas”, diz. 

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma

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