Turismo histórico no país onde os ‘fazedores de história’ ainda vivem

por Arsenio Reis

O incipiente setor do turismo de Timor-Leste conta, entre alguns dos seus visitantes, com um pequeno grupo que tem na agenda do seu ‘tour’ muito mais do que sol, praia e mergulho – ainda que por lá passe na visita ao segundo país mais jovem do mundo.

Para estes visitantes, um dos principais atrativos do país é o contexto histórico: um país que há menos de duas décadas votou – num clima de violência e medo – a favor da independência e que depois de alguns solavancos caminha com relativa estabilidade política e social pelo seu próprio pé.

Em termos de monumentos, Timor-Leste não é tão rico como outros países vizinhos. Décadas de violência às mãos do ocupante indonésio – que acabaram com a destruição quase total dos edifícios do país em setembro de 1999 – tornaram a já pouca edificação monumental ainda mais debilitada. 

Mas isso não implica que o país não tenha outro tipo de ‘monumentos’ para quem procura história. Com um valor acrescentado especial: Timor-Leste ainda tem vivos muitos dos seus líderes históricos, alguns dos quais responsáveis pela vitória da luta pela independência. E alguns deles, como os veteranos da guerra, estão ainda disponíveis para acompanhar visitas aos locais no mato onde se combateu os ocupantes.

Os acessos a alguns dos locais são complicados, mas por isso mesmo acrescentam um grau ainda maior de realismo a quem aposta neste tipo de visitas, muito diferentes dos ‘pacotes’ completos em hotéis de luxo de onde praticamente não se sai nas férias.

A possibilidade de contactar os intervenientes históricos e de perceber o que entretanto mudou no país pode ter um impacto que vai muito além da vertente turística.

Um dos exemplos é o programa Timor Awakening, desenhado por um grupo de apoio a ex-combatentes australianos – alguns dos quais serviram em Timor-Leste na missão internacional que veio para o terreno depois do referendo de 1999. 

Muitos desses ex-combatentes – que depois de Timor-Leste serviram em teatros de operações muito mais complicados como o Iraque ou o Afeganistão – vivem hoje com situações complicadas de stresse pós-traumático, alcoolismo, abuso de drogas ou depressão.

O Timor Awakening traz alguns desses veteranos a Timor-Leste onde podem, por um lado, constatar o impacto que a libertação teve no país e na sua população mas, ao mesmo tempo, contactar com veteranos timorenses que depois da guerra também tiveram que dar a volta à sua vida.

E os impactos podem ser significativos, como destaca John Barletta, psicólogo clínico e um dos voluntários que apoiou o Timor Awakening.

Este especialista australiano destaca o impacto positivo que o programa de ‘imersão’ tem tido nas vidas de ex-combatentes. “Tem sido inspirador ver veteranos voltarem a conectar-se, ajudarem-se mutuamente e a conseguir recuperar até um sentido de valor nas suas vidas”, explicou Barletta, que recordou que muitos dos ex-combatentes estiveram em ação no território timorense.

Barletta refere que muitos dos ex-combatentes viviam com situações de isolamento, stresse pós-traumático, adição a álcool e outras substâncias e pensamentos de suicídio e que a viagem por Timor-Leste os ajudou.

“Os veteranos, apesar de feridos e tocados de várias formas, têm mostrado como se conseguem inspirar, centrando-se no futuro, e têm trabalhado para mudar as suas vidas, inspirando-se no Timor Awakening para procurar mais saúde e bem-estar”, explicou.

Muitos dos soldados puderam ver, in loco, os resultados positivos da sua ação, com a vida da população timorense a melhorar significativamente face à realidade da ocupação indonésia e dos momentos violentos de 1999.

“Logo no primeiro dia em Díli, os nossos veteranos puderam dizer ‘o que eu fiz valeu alguma coisa’. Para muitos foi poderoso e emocionante ver crianças nas escolas, uma nova geração que vive hoje também graças ao trabalho dos soldados”, explicou.

O primeiro grupo de ex-combatentes a aproveitar o programa chegou a Díli em julho do ano passado tendo participado numa viagem por vários pontos do país onde manteve contactos com intervenientes na história recente do país, especialmente com comunidades que sofreram com os conflitos.

Durante a viagem de 11 dias, que incluiu visitas a oito municípios, os participantes no Timor Awakening contactaram com veteranos timorenses, ex-membros das Falintil (o braço armado da resistência timorense), com o objetivo, segundo os organizadores, “de fortalecer os laços entre os ex-militares dos dois países que datam da Segunda Guerra Mundial”.

A iniciativa, que acabou por se tornar também numa das primeiras grandes experiências de turismo histórico de Timor-Leste, pretende ser, de forma mais ampla, um programa “de bem-estar e reabilitação global na área da saúde, para veteranos australianos, fundado na solidariedade, camaradagem e cuidados holísticos”, segundo o Governo.

É também um quase teste, que pode representar uma linha muito particular de turismo para Timor-Leste. Viagens em que as comunidades locais são especialmente envolvidas e em que o impacto da história na vida das populações é explicado.

Um exemplo de onde Timor-Leste pode retirar notas positivas depois da tragédia que foi um longo conflito cujas marcas se sentem ainda hoje em quase todos no país. 

António Sampaio-Exclusivo Lusa/Plataforma

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