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Startup do fim da política

Emmanuel Macron, liberal empreendedor de uma espécie de startup política, aparentemente surgida do nada, tem por base a consciência estratégica do valor em urna do discurso antipolítico. Paradoxalmente, transforma-se na esperança maior da sobrevivência do projeto político europeu. Perante o escândalo de enriquecimento ilícito da família de François Fillon, face falida do conservadorismo e da austeridade moral, Macron é agora o candidato mais bem colocado para derrubar Marie Le Pen numa provável segunda volta das eleições francesas. Se a Frente Nacional vencer, a Alemanha, sem a França depois do Brexit, não será capaz de sustentar um projeto europeu já de si depauperado, frágil e disfuncional.

Macron, conhecido como candidato pisca-pisca, é o amigo de todas as causas populares e modernistas, espécie de populismo sofisticado medido em grupos de foco sem qualquer ideologia de base, medido com base na psicose das redes sociais e das causas futuristas. Para uma geração viciada em ver nos gauleses o contraponto ideológico ao pragmatismo britânico e à eficiência germânica, este é o fim da política tal como a conhecíamos. Trump, por mais odiado que pareça, deixa a lição bem entendida: o Estado gerido como uma empresa e as pessoas tratadas como peões robotizados seduzidas por tendências de base tecnológica.  

Em todos os quadrantes surge no horizonte o regresso ao nacionalismo. Mais radical nuns lados, menos noutros, parece ser incontornável o tema da soberania e recuperação do Estado-Nação por oposição à governação global. Mais curioso ainda é perceber que a quadratura do círculo – primeiro é preciso garantir direitos económicos, depois sociais, e só no fim os políticos, sendo impossível promover todos ao mesmo tempo -,  tese que formatou o pensamento político de Lee Kuan Yew em Singapura, espalhando-se por todos os tigres asiáticos, vinga hoje também entre os populistas ocidentais. E esse é o maior erro a Ocidente. Porque assim a Ásia não vai liderar o mundo apenas em termos económicos, mais também ao nível dos valores globalizantes. Diga-se, na pior versão possível do ponto de vista da liberdade individual. Afinal o que quer o Ocidente liderar? Talvez o caminho para o seu próprio abismo.

Paulo Rego

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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