Paulo Rego - ESTABILIDADE E CRESCIMENTO - Plataforma Media

Paulo Rego – ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

 

Faz parte da nossa identidade editorial o especial interesse pelos processos eleitorais que se vivem no Brasil e em Moçambique. As notícias falam por si e as campanhas em curso refletem a realidade dos países em causa, bem como as preocupações centrais da população, refletidas nos discursos políticos e na postura dos candidatos. Independentemente das análises que se façam e das leituras que elas possam provocar, o melhor que se pode desejar, nestes dois casos, como aliás em todas as nações, é que haja estabilidade política e capacidade de levar a cabo planos de desenvolvimento económico e social que beneficiem o desenvolvimento em geral e as populações em particular, mas também a capacidade de afirmação internacional numa ordem que se pretende mais justa e multipolar.

Os dois países lusófonos partem para novos ciclos políticos em posições relativas diferentes. A maior potência sul-americana vem de níveis exponenciais de crescimento económico que, no início deste milénio, a catapultaram como potência global emergente. Contudo, tem vindo a sofrer quebras no seu ritmo de desenvolvimento, circunstância que adensa as críticas à governação e o debate interno sobre quais serão os melhores caminhos para recuperar parte da ambição entretanto retraída. Já no caso de uma das portas do Índico para África, embora os seus níveis de desenvolvimento sejam muito inferiores aos do Brasil, o recente acordo de paz entre o governo e a oposição emite sinais de estabilidade que são cruciais para sustentar o interesse crescente do investimento externo. Moçambique é um dos poucos países que atualmente ostenta taxas de crescimento elevadas e consistentes, mas onde tanta coisa está por fazer que, um pouco por todo o mundo, espreitam-se oportunidades de negócio que participem nessa ambição de desenvolvimento.

A China segue de perto estes processos. Se, por um lado, as trocas comerciais com o Brasil são cada vez mais estratégicas para a economia chinesa; por outro, é também relevante para Pequim a influência potencial de Brasília no seio da Mercosul, na sua relação com os Países Africanos de Língua Portuguesa – Angola em particular – ou mesmo o papel que pode desempenhar a partir do contexto das novas potências emergentes (BRICS). Ou seja, a relação com o Brasil, sendo bilateral e um caso claro de sucesso do modelo chinês de internacionalização, tem também relevância multilateral e um horizonte estratégico global. Já no caso de Moçambique, a longa relação do Partido Comunista Chinês com a Frelimo – partido no poder – muito antes da independência – a par da sua situação geográfica, faz deste vizinho da África do Sul uma porta estratégica para a África subsariana.

Quer no Brasil, quer em Moçambique, o debate sobre a internacionalização das suas economias tem-se revelado um tema secundário nos discursos dos candidatos, ocupando igualmente pouco espaço nos Media. Essa circunstância apenas revela o que vai na alma das populações, centradas na discussão dos problemas que dominam o seu dia-a-dia. Mas isso não significa que as relações internacionais sejam uma questão menor quando se debate o futuro destas nações. O interesse por estes países é cada vez mais generalizado, não faltando à China concorrência por parte de outras nações asiáticas, europeias, americanas, ou mesmo africanas.

Faz também parte da nossa identidade editorial estarmos especialmente atentos aos movimentos de Pequim uma vez findos estes processos eleitorais, no sentido de perceber se haverá – ou não – necessidade de estratégias complementares de afirmação do projeto lusófono chinês. Cabe-nos também continuar a pugnar por uma intervenção mais consistente e ambiciosa de Macau nestes processos. Sejam quais forem as circunstâncias pós-eleitorais no Brasil e em Moçambique, a questão estrutural manter-se-á na agenda política e mediática da China e de Macau. Aliás, pode até ser que os debates internos criem novas necessidades/oportunidades no contexto do projeto lusófono chinês.

 

 

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