Henrique Raposo - DEEM-ME PENÁLTIS - Plataforma Media

Henrique Raposo – DEEM-ME PENÁLTIS

Por favor, deem-me penáltis. É sempre esta a minha súplica. Antes do início de cada Mundial, ajoelho-me e peço aos deuses da bola uma dose generosa de penáltis. É que o desempate através da marca da grande penalidade é a essência da competição. Os penáltis dão ao Mundial um ar de tragédia grega que prende literalmente o mundo inteiro. Sim, é no desempate por penáltis que o Mundial chega mesmo a toda a gente, de Nova Iorque a Famalicão, de Macau a Buenos Aires, de Toronto a Luanda. Porquê? Aquelas pessoas deveras irritantes e profundamente desprezíveis que não gostam de futebol, a minha mulher, por exemplo, deixam de lado os seus gostos incompreensíveis e agarram-se à telinha no momento dos penáltis. Durante aqueles minutos, o futebol passa a ser um drama universal, um cocktail explosivo de emoção à espera do desenlace: quem vence?, quem chora?, quem falha?, quem falha o pontapé definitivo? Depois de 120 minutos, depois de milhares de toques na bola, tudo se resume àquele último remate. Será um remate redentor ou trágico? Perante este potencial dramático, até o mais pedante dos seres é forçado a gostar de futebol quando o Mundial chega à fase decisiva dos penáltis. Até a minha mulher fica rendida.

Como toda a gente sabe, qualquer conversa sobre penáltis tem de passar pelos ingleses, esses pobres desgraçados que perderam sempre no desempate final: Mundial 1990, Europeu de 1996, Mundial de 1998, Europeu de 2004, Mundial 2006, Europeu 2012. No fundo, os “bifes” são os bobos da festa. Uma vitória inglesa nos penáltis tornou-se tão improvável como uma vitória portuguesa no festival da Eurovisão. Ora, como bem se lembram, os ingleses já perderam uma decisão com Portugal. Nos quartos-de-final do Mundial de 2006, o guarda-redes Ricardo foi o herói de serviço, pois fez uma espécie de hat-trick ao contrário: defendeu os penáltis de Frank Lampard, Gerrard e Gallagher. Uma repetição do filme dos quartos-de-final do Europeu de 2004, esse momento mágico em que Ricardo derrotou sozinho os ingleses noutro desempate por penáltis. Hoje, quando revemos o filme destes episódios, fica a ideia clara de que os ingleses olhavam para Ricardo como se ele fosse um macumbeiro, um mágico que conhecia segredos inacessíveis a um guarda-redes normal. Aliás, em 2006, era evidente que os jogadores ingleses tinham medo de olhar para Ricardo, da mesma forma que os primeiros navegadores tinham medo de olhar para os feiticeiros da Papua Nova Guiné. E, de facto, Ricardo era um mistério insondável: como é que um guarda-redes mediano e fraquíssimo nos cruzamentos se transformava assim no Merlin dos penáltis? Como é que alguém tão banal se elevava daquela maneira nas horas decisivas? Se Ricardo é o zénite, Bodo Illgner é o início desta maldição inglesa. Nas meias-finais do Mundial de 1990, o guarda-redes da República Federal Alemã embruxou Stuart Pearce e Chris Waddle. Foi no final deste jogo que Gary Lineker cunhou uma das frases mais famosas do futebol: “O futebol são 11 contra 11 e no final ganha a Alemanha.” Já agora, diga-se que a Alemanha é o exacto oposto da Inglaterra, ganhou todos os desempates por penáltis que enfrentou: Mundial de 1982, Mundial de 1986, Mundial de 1990, Europeu de 1996 e Mundial de 2006.

Mas, como é óbvio, os penáltis mais emocionantes foram aqueles que determinaram dois títulos de campeão do mundo, em 1994 e 2006. No Mundial dos EUA (1994), defrontaram-se na final duas versões da Itália, a Itália original e a imitação brasileira – o infame escrete de Parreira que jogava com três médios defensivos. E este desempate voltou a comprovar a tese de que os grandes jogadores falham nos penáltis. Franco Baresi, o maior líbero do futebol desde Frank Beckenbauer, atirou por cima da barra. Massaro, que já tinha sido campeão do mundo em 1982, permitiu a defesa de Taffarel.

Roberto Baggio, uma das grandes estrelas dos anos 90, atirou por cima e deu o Mundial ao Brasil. Como é que um génio bloqueia assim no momento da decisão? Em 2006, o espírito retranqueiro da Itália voltou a provocar uma final decidida por penáltis, desta vez contra a França. De novo, as estrelas que brilharam durante os 90 minutos de jogo colectivo entraram em colapso na hora do aperto individual. Ainda durante o prolongamento, Zidane foi expulso devido à famosa cabeçada que fez questão de aplicar no peito de Materazzi. Nos penáltis, David Trezeguet, estrela só superável por Zidane, falhou o único penálti do desempate, entregando assim o título à Itália.

Para este Mundial, não desejo necessariamente uma final decidida por penáltis, até porque isso significaria mais uma final com italianos. Mas mal posso esperar pela hora dos penáltis, a hora em que os ingleses descobrem o que é ser do Benfica, a hora em que os alemães revelam que são aliens a espiar os humanóides, a hora em que guarda-redes medianos lançam sombras eternas sobre génios, a hora que transforma o futebol no fenómeno mais universal do planeta, a hora em que todos os espectadores e telespectadores se transformam em especialistas de expressão facial: aquele vai falhar, estás a ver aquele sobrolho carregado e a face gelada? Estás, não estás?

 England vs Portugal 2004

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter