Início » A paz tem mais interesse

A paz tem mais interesse

Paulo Rego, Diretor Geral

Muito criticado a ocidente, o apoio de Xi Jinping a Putin era mais que óbvio – e natural. Não era prioritário, nem sequer preferencial; contudo, a pressão de Washington no Índico, no Estreito de Taiwan, no sudeste asiático, nos mercados globais… mais o avanço da NATO, empurraram a China para essa evidência: o abraço do “urso” a quem se mostra capaz de fazer guerra ao arco atlântico; ainda por cima a troco de petróleo e gás barato; e garantindo a paz com a potência nuclear com quem partilha tão extensa fronteira. Paga é um preço alto por isso: a guerra na Ucrânia, monstro que assusta a Europa, é a maior arma na voz de todos aqueles que querem bloquear a potência emergente, protegendo o messianismo norte-americano. É sobretudo por isso – não por regra nem moral – por puro interesse geoestratégico, que Pequim só pode querer o fim dessa guerra. Não faz sentido querer o contrário.

O futuro próximo é claro: os onze países já alinhados no BRICS – 4 mil milhões de pessoas, metade da população mundial – são a base real de afirmação do Sul Global, ideia de mundo alternativa à do Norte Atlântico, que impõe as regras da globalização. É também essa a plataforma mais óbvia para a desdolarização da economia mundial; e é nesse jogo que a China se move para internacionalizar o renminbi. Tudo isso é muito maior que a guerra na Ucrânia, que tem efeitos de duplo sentido: por um lado, distrai o ocidente, concentrado em zonas mais longe do sudeste asiático; por outro, foca a narrativa do combate à expansão económica e influência política da China.

Está a desenhar-se um novo tratado de Tordesilhas, desta vez traçado na horizontal; e não na vertical, como fizeram Portugal e Espanha. Contudo, para que esse caminho se faça, urge acabar com a guerra, imoral e disruptiva

Se outros sinais não houvesse, as recentes conversas entre Trump, Xi Jinping e Putin mostram quão importante essa guerra é no jogo de influências. Está a desenhar-se um novo tratado de Tordesilhas, desta vez traçado na horizontal; e não na vertical, como fizeram Portugal e Espanha. Contudo, para que esse caminho se faça, urge acabar com a guerra, imoral e disruptiva. Nunca sendo justificada, nem aceite por grande parte da opinião pública mundial, ergue o muro que verdadeiramente bloqueia uma nova ordem mundial e uma nova lógica económica.

Claro está que há motivos muito mais nobres para acabar com a guerra; aliás, como há para se deixar o Médio Oriente em paz, ou não raptar Maduro. Mas não é isso que realmente está em causa; pelo menos não na cabeça dos grandes jogadores. Os recursos naturais, a energia, o domínio tecnológico, o acesso aos mercados, muito em breve a água… são as peças que verdadeiramente se movem neste tabuleiro. E, olhando hoje para o mapa, só há dois caminhos possíveis: um acordo em larga escala, que se foque na paz, no multilateralismo e na globalização, poupando as populações a focos dramáticos de conflito bélico; ou guerras suicidas em muito mais larga escala; nas quais todos perdem, e nada têm a dar ao povo.

Desde o início da invasão russa defendo que a China está a perder a oportunidade de se afirmar mundialmente como player pacificador. Optou por outra prioridade; já ganhou muito com isso, mas agora não há duas. A grande oportunidade é seguir o caminho que verdadeiramente ilumina a sua afirmação mundial; tem interesse estar na paz – e ainda bem.

Tags:

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!