A paz possível na Ucrânia – e na Palestina – não é a dos valores que se levantam em nome dos mais fracos. Hoje o mundo é dos fortes, das potências em ascensão que se sobrepõem aos impérios em declínio. Conquistam terreno e poder em nome de valores que, sendo os seus, chocam e deprimem quem cede. A alternativa é os invadidos morrerem eternamente para salvar valores que, sendo seus e legítimos, defendem aqueles que, consternados no sofá, querem que outros defendam o estilo de vida que sentem ameaçado. Aplaudem o heroísmo de quem entrega a carne aos canhões; não percebem quão contraditória é essa tese com a defesa da vida alheia.
Trump percebe que o império americano está em declínio; gasta mais energia a ser polícia do mundo do que a que arrecada com o messianismo omnipresente. Antevendo esse abismo, diz à Europa que pague as suas guerras, ou aceite a paz que houver. Talvez injusto, quiçá venal; mas confronta o Velho Continente com a sua própria realidade: ou emite dívida para armar a Ucrânia, ou elimina os tetos de dívida. Como não há consenso, já se admite eliminar o veto e decidir por maioria; o que merece o contra-aviso de países como a Hungria, ou a Bélgica: nesse caminho, não cumprem a decisão.
Trump percebe que o império americano está em declínio; gasta mais energia a ser polícia do mundo do que a que arrecada com o messianismo omnipresente
A União Europeia implode. O PIB russo cresce 1%; longe dos 5% da China, mas dez vezes mais que o da Alemanha. Além da visão estratégica – ou falta dela – e da (in)eficiência na execução; a gestão da crise mostra as vantagens da liderança e da autoridade. Que há na Rússia, na China, e nos Estados Unidos… concorde-se – ou não – com esses regimes; muito diferentes uns dos outros. Fala-se a ocidente na vingança da direita radical; mas é bem mais profundo: esse é apenas o modelo que emerge no declínio das democracias liberais. Não vamos agora confundir a Rússia e a China com a extrema direita…
É preciso confrontar o eleitorado europeu com a História dos fascismos e do colonialismo; se a liderança política e a eficácia económica implicam mesmo ditaduras nacionalistas e protecionistas. Esses modelos também implodiram – e bem – porque alimentaram guerras e trataram mal o povo. Como dizia Churchill, a democracia é apenas o pior de todos os sistemas, excetuando todos os outros; e nunca houve modelo mais justo e distributivo que o Estado Social das democracias liberais. Está a falir; e eclipsam-se as lideranças capazes de se reinventar. É esse o caminho das pedras: reencontrar um horizonte de luz… porque ao fundo do túnel anuncia-se o regresso à ilusão das trevas.
*Diretor Geral do PLATAFORMA