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Olhar para dentro

Fernando M. Ferreira*

Há um paradoxo que Macau insiste em ignorar. Discutem-se rotas para Hengqin, projeta-se a integração na Grande Baía como se a cidade estivesse pronta para competir nesse tabuleiro alargado; mas, continua por resolver uma pergunta básica: que cultura queremos afirmar? Que identidade queremos preservar, transformar e projetar? O debate sobre a indústria criativa e cultural, exposto com clareza por Victor e Alexandre Marreiros na nossa edição (páginas 10 a 12), mostra que Macau ainda não fez o trabalho de casa.

Não falta talento. Falta ecossistema; estrutura; visão. Os artistas locais vivem num espaço onde quase tudo depende de esforços individuais; o impulso criativo raramente encontra chão para se transformar em indústria. Como diz Alexandre, em Macau o artista está isolado; faltam escolas fortes, um mercado funcional, galerias, museus que não apenas exibam, mas construam reputação; promovam, internacionalizem. Falta um sistema que permita criador – e não criar nas horas vagas. Não se resolve com proclamações sobre “indústrias culturais”, mas políticas concretas; foco; e, sobretudo, critérios de sucesso. A seu tempo veremos se a anunciada Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados cumpre o que promete.

A integração regional exige competitividade, mas também identidade. Exige uma cidade que saiba o que traz para a mesa, que não participe apenas como extensão administrativa ou apêndice económico

No discurso oficial, Macau é uma plataforma, ponto de encontro, espaço singular na Grande Baía. Porém, só será se tiver conteúdo. E conteúdo cultural é impossível sem continuidade, investimento; um verdadeiro mercado que valorize a arte para lá do consumo simbólico. A questão não é ter muito – ou pouco – apoio financeiro; é não ter objetivos, metas, resultados mensuráveis. Falta cultura de mercado; e vontade real de elevar a criação a um palco maior.

É aqui que o debate sobre Hengqin se revela incompleto. A integração regional exige competitividade, mas também identidade. Exige uma cidade que saiba o que traz para a mesa, que não participe apenas como extensão administrativa ou apêndice económico. Se Macau não define a sua própria narrativa, serão outros a defini-la. Uma cidade que não cuida dos seus artistas, que não profissionaliza o seu setor cultural, não cria condições para que a criatividade floresça como indústria, dificilmente terá argumentos num espaço onde Shenzhen, Hong Kong ou Guangzhou operam com outra musculatura institucional.

Queremos ter planos para Hengqin? Primeiro precisamos de planos para Macau. Não basta querer integrar; é preciso uma base sólida que se afirme; não basta falar de sinergias, é necessário construir valor antes de o partilhar. A cultura e a criatividade não são ornamentos, são infraestruturas estratégicas num mundo que compete com símbolos, narrativas e reputação.

*Editor-chefe do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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