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Para onde vais, Europa?

António Sousa Pereira, Reitor da Universidade do Porto

O presidente da Hungria, Viktor Órban, recusou na semana passada a adoção do euro pelo seu país, argumentando que a União Europeia “se está a desintegrar”. O diagnóstico é relativamente tragicómico: a Hungria nem sequer cumpre os requisitos exigidos para trocar o forint pela moeda da Zona Euro, mas não se priva de contribuir de forma empenhada para a cada vez mais preocupante fragmentação do projeto europeu. Fá-lo, por exemplo, ao contrariar, sempre que pode, as políticas da UE relativamente à invasão russa da Ucrânia e ao adotar posições que contrariam o espírito solidário, humanista e progressista da união. E Órban está cada vez menos isolado nesse caminho.

O panorama político na União parece, com efeito, corresponder, cada vez mais, à cínica descrição do primeiro-ministro húngaro (veja-se as duas moções de censura que Ursula von der Leyen teve de enfrentar na semana passada). A crise política em França, a estagnação económica da Alemanha, o exacerbamento dos nacionalismos (e até de regionalismos, como em Espanha), as hesitações relativamente à carnificina em Gaza, o desprezo de Trump ou o atraso tecnológico relativamente à China são indícios de uma deriva acentuada e que recorda, em muitos aspetos, aquilo que sucedeu antes do triunfo dos fascismos na Europa e da eclosão da I Grande Guerra.

Comprometida que está a necessária (e essencial) coesão da União, não é hoje possível garantir, sequer, a continuidade do ambicioso edifício político, económico e ético erguido desde a criação, em 1957, da então CEE. Nem parece improvável que, minados pelas contradições e divisões, os países europeus vejam chegar ao poder figuras como Le Pen, Abascal ou Weidel (e respetivos sucedâneos), impelidos pelo exacerbamento do ódio e pela “curadoria algorítmica” (extraordinário eufemismo que li há dias) das redes sociais. Caso a UE não seja capaz de encontrar rapidamente um rumo de efetiva união e justiça social, não seremos em breve capazes de descortinar, sequer, que diferença haverá entre o regime de Putin e os regimes que teremos na generalidade dos países europeus.

Artigo originalmente publicado no Jornal de Notícias

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