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Kamala surpreende e desilude

Guilherme Rego*

Donald Trump e Kamala Harris defrontaram-se no primeiro – e talvez último – debate antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos, marcadas para 5 de novembro. Desde a desistência de Biden, os democratas conseguiram recuperar terreno e, à entrada para o debate, o ex-presidente e a atual vice-presidente dos EUA estavam praticamente empatados nas sondagens. A popularidade da dupla democrata Kamala-Walz foi também evidente na postura que cada um adotou durante o debate: Trump à defesa, Harris ao ataque (e confortável nesse papel).

A grande maioria dos meios de comunicação social atribuem a vitória a Kamala, e de forma clara. A CNN, por exemplo, divulga que 63 por cento dos eleitores consideraram que a democrata teve o melhor desempenho. O The Washington Post falou com eleitores dos chamados ‘swing states’ – estados que ora votam nos republicanos, ora votam nos democratas – e houve maior concordância com Kamala nas temáticas da saúde, aborto e Ucrânia (mesmo entre eleitores a favor de Trump). Já o ex-presidente conquistou os eleitores no plano económico. Na Fox News, um meio de comunicação republicano, dizem que a dupla de moderadores da ABC News, David Muir e Lindsey Davis, foi parcial, a favor de Kamala, contribuindo para que o debate fosse “1 contra 3”. Trump também o disse a seguir ao debate. O New York Times avança que, se houvesse eleições logo após o debate, Trump teria mais votos – ainda que com uma margem muito pequena. Isto porque enquanto os eleitores de Trump não têm dúvidas quanto à sua posição nos grandes temas, os democratas ainda não perceberam o que Kamala pretende para o país. Certo é que os congressistas republicanos estão preocupados com o desempenho do seu candidato no debate. Trump perdeu a compostura e divagou em várias questões, nunca conseguindo passar uma mensagem coesa. Prova disso foi quando, para atacar a atual política de imigração, disse que em Ohio os refugiados haitianos andavam a comer cães e gatos domésticos – algo que já foi assumido pelas autoridades como sendo falso.

Segundo a verificação de factos da ABC, Trump foi quem lançou mais falsas acusações durante o debate. Kamala também fez falsas acusações, e muitos dos seus ataques a Trump eram “em parte verdade”, ou “precisavam de contexto”, trazendo ao de cima a pouca responsabilidade e seriedade com que ambos os políticos falaram à nação.

Trump enfrentou uma oponente mais forte que Biden, e o candidato de 78 anos pareceu agora o menos lúcido. Mas, verdade seja dita, o debate foi muito fraco. Nenhum dos candidatos falou realmente das políticas que pretendem implementar. Preferiram, como aliás começa a ser hábito, atacar as agendas da oposição. Como resultado, quem realmente perdeu foram os eleitores norte-americanos que, entre ataques pessoais, mentiras, e declarações vazias, saem do debate sem perceber o que cada um oferece para o futuro. A política norte-americana está cada vez mais pobre.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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