A China cancelou abruptamente duas reuniões com a União Europeia (UE) previstas para este mês, num sinal do agravamento das tensões comerciais, numa altura em que Bruxelas prepara novas medidas para travar as exportações chinesas.
As autoridades chinesas cancelaram uma reunião ministerial sobre questões digitais e outro diálogo com o secretário-geral adjunto do Serviço Europeu para a Ação Externa, Olof Skoog, segundo o jornal britânico Financial Times (FT), que cita fontes familiarizadas com o assunto. As fontes indicaram que os encontros foram cancelados com pouca antecedência e sem qualquer explicação oficial.
O cancelamento surge num contexto de crescente fricção entre Pequim e Bruxelas, marcado pelo aumento das exportações chinesas para a UE e pela intenção europeia de reforçar mecanismos de proteção à indústria europeia. Entre janeiro e maio deste ano, as exportações chinesas para o bloco europeu aumentaram 16.4% em termos homólogos.
Pequim tem procurado travar a adoção de novas medidas europeias, incluindo a proposta de Lei do Acelerador Industrial, que poderá excluir determinados produtos chineses de concursos públicos e limitar aquisições de empresas europeias por grupos chineses.
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A Comissão Europeia apresentou também alterações à legislação sobre cibersegurança que poderão afastar empresas chinesas, como a Huawei, de infraestruturas consideradas críticas, incluindo redes de telecomunicações e sistemas ligados à energia solar.
Bruxelas decidiu igualmente bloquear o financiamento público para inversores importados utilizados em instalações solares e noutras tecnologias energéticas, um segmento dominado por fabricantes chineses.
No mês passado, a Comissão Europeia classificou como “insustentável” o défice comercial com a China, atualmente estimado em cerca de mil milhões de euros por dia, e admitiu a possibilidade de novas tarifas para proteger setores industriais europeus, incluindo a indústria automóvel.
Em junho, Bruxelas abriu ainda três investigações ‘antidumping’ – venda a preço inferior ao custo de produção – relacionadas com produtos chineses.
A agência de notícias oficial chinesa Xinhua advertiu que Pequim “não deseja uma guerra comercial com a UE”, mas prometeu “contramedidas firmes” caso o bloco continue a visar empresas ou produtos chineses.
Já o jornal oficial Global Times escreveu que a Europa “não deve nem pode permitir-se travar uma guerra comercial com a China”.
O endurecimento da retórica chinesa coincide com os preparativos para a cimeira do Conselho Europeu da próxima semana, em Bruxelas, onde os líderes europeus deverão discutir competitividade e desafios económicos globais, incluindo a relação com a China.
Autoridades europeias citadas pelo FT afirmaram que Pequim tem intensificado os contactos diretos com os Estados-membros na tentativa de evitar uma posição comum mais dura do bloco.
Apesar dos cancelamentos, a Comissão Europeia indicou que os dois encontros estão a ser reagendados e sublinhou que o diálogo entre Bruxelas e Pequim continua em vários níveis.
O executivo comunitário destacou uma reunião realizada em 09 de junho, em Bruxelas, entre a diretora-geral para o Comércio da Comissão, Ditte Juul Jørgensen, e o vice-ministro chinês do Comércio, Ling Ji, destinada a preparar futuros encontros bilaterais.