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Diversificação sem “horizonte temporal definido”

O Fundo de Orientação Governamental, sendo “importante”, não tem ainda timings nem regras; o capital privado “espera para ver”; falham em Hengqin as “expetativas criadas de livre circulação”; faltam “soluções” para o Made in Macau; faltam quadros qualificados e os jovens que cá estudam “têm de ir embora...” José Luís de Sales Marques, economista, dá uma série de pistas para pôr a andar a diversificação económica. Até se percebe como; quando já é mais difícil

Paulo Rego

– Num contexto de incerteza mundial, o novo ciclo acelera a integração política de Macau; mas falha a diversificação económica. Como se dá esse salto?

Sales Marques – No ambiente de diversificação da economia, há vários níveis de importância, ou de impacto. Em primeiro lugar, as quatro indústrias emergentes: big health, alta tecnologia, finanças modernas e MICE. Penso que a big health será sobretudo Medicina Tradicional Chinesa (MTC), onde o Governo já investiu – e não foi pouco. Falta ver os resultados, nomeadamente no Parque de Hengqin.

– O MICE também não é novo; e tem alicerces nos resorts integrados. O investimento deve concentrar-se na tecnologia e a finanças?

S.M. – Sim, sobretudo nessas duas frentes. É muito importante o Fundo de Orientação Governamental, e a Sociedade de Investimento e Gestão de Macau. Pela primeira vez o Governo põe em cima da mesa um plano para alocar 11 mil milhões de patacas – fase inicial – que pode ir até 20 mil milhões. É um montante significativo, mas no projeto do Plano Quinquenal não foi posto um timing para a entrada em funcionamento dessa empresa. Espero que seja ainda este ano, porque os investidores estão a olhar para isso. Depois, há Hengqin, o Parque da Ciência e Tecnologia, e todos aqueles projetos anunciados, que ainda vão levar tempo.

O capital privado está à espera de ver as condições oferecidas pelo mercado; o Governo tem de criar condições perceptíveis e transparentes; tem de haver sobretudo previsibilidade

– Todos no papel… 

S.M. – Os potenciais investidores; locais, do Interior da China ou estrangeiros, esperam para ver. O Fundo de Orientação é uma tradição no Interior da China; não haverá dificuldades em adaptá-lo às características de Macau. Depois há que tomar boas decisões e fazer boas escolhas; estamos a falar de coisas muito grandes.

– Há ainda muitas dúvidas em relação a esse Fundo…

S.M. – O Governo terá que definir a sua participação; estamos a falar de parcerias público-privadas. O problema é que o capital privado está à espera de ver as condições oferecidas pelo mercado; o Governo tem de criar condições perceptíveis e transparentes; tem de haver sobretudo previsibilidade.

– E as infraestruturas?

S.M. – Uma indústria financeira não precisa de muito espaço; já uma tecnológica pode precisar de instalações. Em Macau, não me parece; na China há o problema dos acessos. Já no caso da MTC, ou pequenos investimentos privados, as barreiras à circulação têm de ser resolvidas; deve-se maximizar o potencial das chamadas barreiras de primeiro e segundo nível.

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– Anular a fronteira entre Macau e Hengqin?

S.M. – Exatamente. Em princípio, o que pudesse entrar em Macau devia poder entrar em Hengqin; problema que tem de resolver para haver maior integração. Penso que o Governo está ciente disto, mas não é fácil agir numa área que tem duas cabeças – ou mais. A ideia que tenho é que se abre um restaurante e depois não se pode importar bacalhau. São pequenos casos concretos, mas paradigmáticos, que não correspondem às expetativas criadas de livre circulação.

– A integração depende da livre circulação?

S.M. – É preciso ser feito; é crucial. Para o Interior da China não há grandes problemas; já no tempo de Ho Iat Seng encontrou-se a fórmula: fabricado na China, desenhado e concebido em Macau. O problema está nas terceiras jurisdições, por causa da regra de origem. Talvez haja solução através de uma espécie de acordo preferencial de comércio, uma zona de comércio livre… não sei; mas temos de exportar como produto feito em Macau. Compatibilizar o Made in Macau com as regras da Organização Mundial do Comércio seria o ideal.

Temos que ter jovens qualificados que venham viver e trabalhar em Macau; temos que criar condições para que se sintam dignificados, queridos e apreciados

– Onde anda a mão de obra qualificada?

S.M. – Não está no Plano Quinquenal; pelo menos não encontrei, e posso dizer que li com atenção. Não quero usar a palavra talentos, faz-me lembrar concursos de canção ligeira; chamo-lhe mão de obra especializada, quadros qualificados… a questão, de facto, é que temos que criar condições para fixar as pessoas; não em Hengqin – em Macau. Podem vir de qualquer parte do mundo, inclusive do Interior da China. As universidades de Macau investem na formação de imensas pessoas com capacidade; mas, depois do curso, têm de ir embora. Precisamos de as ter aqui; usem critérios de meritocracia, façam concursos… o que quer que seja. Temos o problema demográfico, estamos de facto a envelhecer; precisamos de jovens qualificados que venham viver e trabalhar em Macau; temos que criar condições para que se sintam dignificados, queridos e apreciados.

– O capital privado não investe; o Fundo de Orientação Governamental não tem ainda regras nem timings, há barreiras à circulação em Hengqin; não se importa massa crítica… De resto está tudo bem; é isso?

S.M. – Sem dúvida.

– Nada está de facto a acontecer…

S.M. – Pois… não há horizonte temporal definido. O que está a acontecer, ao nível da integração, é facilidade de circulação: consumo e serviço. Obviamente vantajoso para os residentes de Macau.

– Atravesso a fronteira, vou ao dentista; janto com a família; vou ao supermercado, encho o tanque de gasolina… e por cá tudo a fechar.

S.M. – Na questão da economia comunitária, o Governo tem razão quando propõe medidas de modernização e reestruturação das empresas familiares; é a única via possível. Não podemos continuar a ter casas de comida com um aspeto terrível, quando aqui ao lado a mesma oferta, mais barata, tem um aspeto fantástico. Outro dia, na Fundação Rui Cunha, uma jovem empresária, que toma conta de uma casa de chá tradicional, explicou o percurso de modernização da sua empresa. Isso é fantástico; temos gente para isso.

– Como ajudar essa gente?

S.M. – Temos de lhes dar o apoio, orientação; e, às vezes, investimento; que, se calhar, não será muito. A Associação Industrial, por exemplo, tem programas de apoio, obviamente pagos pelo Governo, para reconversão de equipamentos. Tudo isso tem que ser feito; mas já começam a surgir cafés e pequenos restaurantes com aspeto bastante melhorado; isto está mais interessante.

O Governo tem razão quando propõe medidas de modernização e reestruturação das empresas familiares; é a única via possível

– Isso do lado da oferta… e na procura?

S.M. – Se a procura não é interna, tem de ser externa; não há outra lógica. No passado os junkets iam comer nesses sítios e gastavam dinheiro; hoje o panorama é outro e os casinos-satélite acabaram. Há sobretudo turistas; por isso, é preciso promover adequadamente essas zonas. Não com base em qualquer boneco importado, mas com identidade local. Isso tem a ver com as pessoas, o património construído, o património intangível e as tradições locais. Tem de haver capacidade de projetar e divulgar isso, introduzindo narrativas apropriadas. Infelizmente, em Macau há muitas narrativas demasiado simplistas; é preciso explorar, ir ao fundo dessas histórias.

– Marketing de qualidade?

S.M. – Uma linguagem clara para os turistas; e qualidade que a justifique. Outro problema é que os estabelecimentos têm custos muito elevados, a começar pelas rendas; tem de se encaixar tudo isto num sistema competitivo. Por um lado, com apoio do Governo; por outro, conscientemente assumido e adaptado pelos interessados. Pequenos comerciantes e empresários não podem ter as mesmas práticas de há três ou quatro anos; têm de modernizar-se, assumir isso como projeto comunitário, obviamente com sustentabilidade económica.

– Macau branding?

S.M. – Sim; com identidade local e branding para cada uma dessas componentes que, felizmente, Macau tem; com História e cultura ao longo de séculos. Isso permite que a quebra na procura interna seja suprida pela procura externa. Mas atenção! Nesta vida, sobretudo em economia, tudo tem que ser experimentado, trabalhado; nada tem garantia de 100%. Mas acho que é a única via.

– Estando hoje mais de 85% do PIB direta ou indiretamente ligado ao Jogo, acredita nas metas de redução drástica dessa dependência?

S.M. – Houve uma percepção errada do que foi anunciado: não se quis dizer que o PIB do Jogo vai ser reduzido para 40%; a questão tem a ver com o valor acrescentado que, nos cálculos mais recentes, é cerca de 73% do produto do setor Jogo – a outra parte tem a ver com consumos intermédios. A verdade é que os dados do Governo são de 2024; e, em 2025, o Jogo voltou a crescer muito mais que o resto da economia. Aliás, como em 2026… Para usar uma linguagem de economista, não é provável que, até 2030, o Jogo caia para 40% do PIB, mesmo na óptica do valor acrescentado. Por um lado, o resto da economia está como está; por outro, há um limite para o que se pode calcular. O Governo não dá números para isso, não quantifica; mas o PIB de Macau, depois da fase de recuperação em que atingiu dois dígitos, entrou numa fase de normalização. Conseguiremos talvez crescer à volta de 5% ao ano, já sendo optimista; há quem preveja 4%, ou menos. É extremamente difícil concluir que o setor não-Jogo possa vir a ser 60% do PIB, mesmo na ótica do valor acrescentado.

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