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Corrente colectiva

João Melo

Outro dia perguntaram-me se tivesse a possibilidade de voltar ao passado para mudar alguma coisa na história de Portugal, o que seria? Embora o mundo aparente seguir uma via determinista, intuo (é apenas uma impressão) o oposto, como para onde tende aliás a inclinar-se a física quântica. Assim não tenho certezas se voltando ao passado e interferisse com algum acontecimento alteraria significativamente o curso da história ao nível do plano geral. Por certo redefiniria a vida pessoal de uns quantos mas talvez a corrente colectiva “emendasse” esse desvio. Até gostava de pensar o contrário, dar-me-ia a sensação de possuir genuíno livre-arbítrio mas julgo ser uma ilusão inerente ao facto de viver num corpo físico em três dimensões.

Imagino salvar da morte acidental o filho de D.João II, o príncipe Afonso que casara com Isabel, a herdeira dos reinos de Aragão e Castela, fazendo antever uma união ibérica. Imagino a realidade alternativa do reinado de D.Jorge filho bastardo de D.João II preterido na sucessão pelo cunhado do rei, o futuro D.Manuel I; D.Manuel acabou por casar com a princesa Isabel, viúva do príncipe Afonso e esta parecia “destinada” a casar com um rei português, porém o contexto era outro e a tal união ibérica não se concretizaria… até menos de um século mais tarde. E se D.Sebastião não tivesse morrido na batalha de Alcácer Quibir? Dá ideia que a união ibérica estava destinada a acontecer, como que provindo de uma “vontade oculta”; efectivamente a instabilidade de D.Sebastião, o declínio do reino português e o crescimento do espanhol sugere que se não “fosse do cu era das calças”. Mas essa união igualmente soa destinada a acontecer para provar, pelo menos até aos nossos dias, não ser viável; por muito que uma família fosse poderosa ao ponto de unir dois países, as suas diferenças eram inconciliáveis. O que considero um dos maiores erros da história portuguesa, a expulsão dos judeus, não se descarta do enquadramento da época. Se viajasse ao passado estou convencido de que nunca conseguiria demover D.Manuel, não tinha lógica; na verdade fê-lo por motivos pessoais mas dificilmente resistiria por muito tempo ao poder do Vaticano e à força da Inquisição. A conjuntura leva-me a crer que se o rei fosse D.Jorge, o filho bastardo de D.João II, a decisão não seria diferente, afinal agradava à Igreja e ao povo. Para deveras modificar alguma coisa necessitaria de regredir até ao Big Bang porque a história humana é como a corrente de um rio, mudam as circunstâncias, ou seja a paisagem, mas vai seguindo num sulco pré-estabelecido ou então criado pela força de zilhões de átomos, abrindo novo sulcos onde encontra menor resistência, e até à era nuclear este curso só se alterou pela natureza; em qualquer dos casos, existir um sulco pré-estabelecido ou avançar por onde há menor resistência, não será complicado calcular para onde se dirige.

Neste momento as circunstâncias revelam uma efervescência na sociedade, bem patente nos jovens, que somente necessita de canais para se manifestar. A projecção em grande escala do estado do mundo, manipulada ou não, é irrelevante para este raciocínio, bem como o descrédito pelas instituições conduz à desilusão; somos inundados de expectativas, particularmente pela indústria do entretenimento e por comparação o quotidiano apresenta-se cinzento. Em Portugal muitos jovens fazem corridas de rua, matam-se em acidentes chamados estúpidos, envolvem-se em brigas de futebol, de discoteca, insultam-se nas redes sociais porque são os escapes ao seu dispor para extravasar o tumulto interior. Os carros, o futebol, a noite, as redes sociais não são os problemas, são os canais que direcionam os problemas. No mundo ocidental juntam-se em gangs urbanos, nos países islâmicos aderem a causas radicais, na Rússia engajam-se no Wagner Group para combater na Ucrânia. De facto isto é tudo um jogo, só e apenas isso, o que difere é a avaliação ética que lhe damos. Dizem os médicos que “ficar sem poder utilizar pode fazer com que certas pessoas se sintam ansiosas ou em pânico, com abstinência e sensação de vazio”. Eis as reacções típicas de um viciado, seja em drogas, redes sociais ou jogos, para dar três exemplos, e o que têm em comum os exemplos é o vício; ora verifica-se que o mundo está viciado nisto e muito mais. As pessoas agarram-se às suas dependências, não fazem auto-crítica, vão acumulando frustrações, alimentando-se de bodes expiatórios, e chegámos a um ponto em que os povos estão devidamente doutrinados, envenenados e preparados para… qualquer coisa. O alvo é a escolher, pode ser uma futilidade ou um grande desígnio colectivo. Se amanhã Portugal declarasse guerra a um inimigo infame para a maioria, finava-se a violência nas ruas (não acabava em casa porque está dentro de cada um e não se esvai do nada); três quartos borravam-se nas calças, quase todos com medo de perder os seus vícios, e o outro quarto voluntariava-se para combater. Querem um exemplo? Vejam o que sucedeu na pandemia. Este era um inimigo invisível, agora imaginem a mobilização contra um visível… A cozedura está no ponto.

E é pelo curso da história que nos trouxe até aqui que penso estarmos à beira de desaguar num conflito mundial, sinto uma “força colectiva” que nos empurra para esse desfecho. Quem será o autor do primeiro disparo, qual será o motivo? Algures no futuro saber-se-á mas se mantivermos a mesma visão, a ilusão do livre arbítrio continuará já que nos focaremos nos principais protagonistas. Se olharmos para o passado de outra maneira constatamos que as duas anteriores guerras mundiais eram situações à espera de acontecer, independentemente do tiro de Gravilo Princip ou da ascensão de Hitler, o paiol foi acumulando pólvora, bastava alguém lançar o fósforo. Nesta perspectiva é-me indiferente saber se a próxima começará na questão de Taiwan, por causa da Coreia do Norte, de um eventual conflito entre Índia e Paquistão, da Turquia – um ponto estratégico de suma importância no equilíbrio mundial, de algum país árabe, da evolução do conflito israelo-árabe ou o da Ucrânia, da fractura interna de países europeus ou dos Estados Unidos, de um grupo terrorista, um maluco solitário ou um conjunto de malucos sem nacionalidade… A má distribuição e escassez de recursos, o predomínio de crenças, a dependência de drogas de toda a espécie e a crispação social já estão no terreno, vão enchendo os paióis sociais por todo o lado, portanto é-me indiferente se o curto-circuito for provocado por um mandarim, o Kim, o Bin, o Putin, o Bidin ou a puta que o parin, a seguir o mundo incendeia-se. Quando acontecer será por falta de avisos? Não, só que as mais fracas dessas vozes vão-se afogando na turbulência da corrente colectiva, as mais fortes tornam-se numa ilha no meio do rio, a corrente passa ao lado, indiferente. Se daqui a dois anos alguém puder provar o contrário, troco de opinião como um cata-vento e agradeço pelos meus filhos, do fundo do coração.

*Embaixador do Plataforma

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