Um mundo infestado de demónios - Plataforma Media

Um mundo infestado de demónios

“Prevejo o que será a América no tempo de meus filhos ou netos – quando os Estados Unidos forem uma economia de serviços e de informação; quando praticamente todas as grandes indústrias se tiverem deslocado para outros países; quando tremendas forças tecnológicas estiverem nas mãos de uns quantos e ninguém que represente o interesse público as conseguir sequer entender; quando as pessoas tiverem perdido a capacidade de planificar o que lhes diz respeito ou de interrogar quem detiver o poder; quando com os nossos cristais fechados na mão e consultando nervosamente os nossos horóscopos, com as nossas faculdades críticas reduzidas, incapazes de distinguir entre o que nos agrada e o que é verdadeiro, regressarmos, quase sem dar por isso, à superstição e à ignorância. A estupidificação da América manifesta-se no lento declínio do conteúdo dos meios de comunicação, extraordinariamente influentes, nos excertos de material gravado de 30 segundos (agora reduzidos a 10 segundos ou menos), inseridos nas peças noticiosas da rádio e da televisão, na programação que se rege pelo mínimo denominador comum, nas apresentações crédulas sobre pseudociência e superstição, mas sobretudo numa espécie de celebração da ignorância.” Carl Sagan, 1995.

Tomei conhecimento destas considerações em 1997 com a 1ª edição em Portugal do livro “Um mundo infestado de demónios”, e quase três décadas depois o cenário aqui previsto é aquele em que vivo, uma explosiva combinação de demasiados ignorantes com demasiado poder. “Não creio que 2023 traga uma inflexão da tendência mas é o que mais desejo para o novo ano” foram os votos que enviei a alguns amigos no domingo primeiro de Janeiro e bastou uma semana para manifestantes brasileiros invadirem as sedes dos poderes do Estado e se confirmar o pior, não há inflexão, antes acentuação da tendência.

O mundo estará mais estúpido? Eu acho que sim todavia pode ser uma impressão típica do conflito de gerações, os meus avós achavam o rock estúpido, os meus pais achavam o punk estúpido e por aí fora. Curiosamente anos mais tarde todos olham para o seu passado e acham que afinal não foi assim tão mau por comparação ao seu presente. No entanto há nuances; estou convencido que quanto maior o poder de um meio, mais tendência terá para reduzir o conteúdo do que transmite de modo a concentrar toda a força no alvo, e também quanto maior o poder para comunicar uma tendência, mais limitados e estereotipados serão os gostos ou pensamentos dos receptores. A questão paradoxalmente fica pior com a concorrência. Quando há décadas os países europeus tinham os canais de TV do Estado e um ou outro privado olhávamos para as Américas como o paraíso da diversidade que alegadamente incentivava a qualidade. Nessa altura a Itália já possuía vários canais privados e com surpresa constatei que ao invés de haver um incremento da qualidade, a profusão de canais apenas espalhou a merda. Os meios de comunicação serão assim meras ventoinhas que difundem aquilo que para lá atirarmos. Da programação de TVs para as redes sociais o processo é análogo, enquanto nas primeiras há um iluminado que escolhe os conteúdos, e para ter audiência deve reproduzir os gostos da maioria, nas redes sociais é cada um de nós que produz ou reproduz conteúdos a seu gosto. Se após a revolução digital os gostos e os pensamentos têm vindo de forma consistente a ser mediocremente formatados imaginem o estado de acefalia em que nos encontramos.

Da impressão à confirmação científica, como já escrevera aqui há uns dois anos, acerca do livro “Fábrica de cretinos digitais”, o neurocientista francês Michel Desmurget expôs uma tendência documentada na Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, etc: nesses países, os “nativos digitais” são os primeiros filhos a ter um quociente de inteligência inferior ao dos pais! O QI é medido através de um teste padrão, no entanto não é um teste “estático”, sendo frequentemente revisto, e ao fazer isso, os pesquisadores observaram que no passado o QI aumentou de geração em geração. Agora as evidências são palpáveis: já há algum tempo que os testes de QI apontam para que as novas gerações sejam menos inteligentes que as anteriores… Nem eu nem o autor consideramos nefasta a “revolução digital”, no meu caso foi uma ferramenta importante para alargar horizontes, o problema é que quando se coloca um tablet nas mãos de uma criança ou adolescente, quase sempre prevalecem os usos recreativos mais empobrecedores; isso inclui a televisão, que continua a ser o número um para todas as idades (filmes, séries, clips, etc.), depois os jogos de vídeo (principalmente de ação e violentos) e, finalmente, na adolescência, um frenesi de inútil auto-exposição nas redes sociais. Os tais 10 segundos ou menos de conteúdo previstos por Carl Sagan são de facto, segundo dados actuais, sete segundos, correspondem a menos tempo de atenção que… um peixe. E é por isto que tenho uma particular aversão ao Twitter, uma plataforma limitada a 280 caracteres, a preferida dos governantes actuais (ó a coincidência), e que para mim é uma porta de casa de banho pública onde se escrevem umas “bocas”. Não é por ser um desafio à síntese ou ter dificuldade em aplicá-la, o que me irrita é o princípio da coisa, a limitação física que inevitavelmente leva a outras limitações; como escreveu Wittgenstein, um dos maiores filósofos do século XX “as limitações das minhas palavras são as limitações da minha mente. Tudo o que eu conheço é aquilo para o que tenho palavras”. O Twitter serve-se do já curto léxico dos utilizadores e oferece-lhes um espaço adequado às suas limitações, raramente servindo para debater ou desenvolver ideias, a maior parte das vezes difunde slogans, senão vejam: o que aprenderam ao ler mensagens nas portas ou paredes de casas de banho? O máximo que aprendi foi a ter noção de que o narcisismo, o ódio e a porcaria são sistémicos na sociedade, e dantes não existiam canais para os veicular; a partir do momento em que se disponibilizaram plataformas e os primeiros não tiveram vergonha de mostrar o seu lado negro, os outros sentiram-se encorajados a perder a vergonha, a cropologia normalizou-se.

Acho que se buscarmos definir a identidade de uma nação, na maior parte das vezes basta olhar para os seus governantes, eles espelham as escolhas (ou falta delas) do povo, mostram a dinâmica da relação existente entre comandados e comandantes. Actualmente Portugal merece uma particular reflexão que não aprofundarei agora, somente usarei o caso nacional no contexto do que pretendo ressaltar. Vamos ser francos: nas últimas eleições legislativas resignámo-nos à falta de alternativas a António Costa para uma governação credível, de tal maneira que ele acabou com uma maioria absoluta que nem nos seus melhores sonhos previra. Meus amigos, a verdade é que ninguém tem soluções, e assim ganhou o que parecia ter mais entusiasmo para as criar. A única opção credível (para alguns) é o Chega, mas esta opção só vinga num contexto de ignorância, desespero e fracasso das instituições, porque aí já não há margem para racionalidade, a revolta vira-se para o “outro”, o culpado de tudo, e a solução parece simples, eliminar o “outro”. Com ou sem intenção este género de discurso de culpabilização de terceiros desresponsabiliza e favorece quem efectivamente tem obrigação de tratar dos problemas, quem foi eleito para governar. Mas em Portugal (ainda?) não pegou porque a maioria não quis realmente Costa no governo, ele está lá porque essa maioria ainda queria menos outro qualquer. Atingimos o ponto em que fora os votantes do Chega, poucos têm moral para atirar ovos podres ao primeiro-ministro. Como Costa ainda sobrevive? Porque das opções disponíveis dentro do “sistema” temos noção de que não há alternativa. Haverá algum português “de bem”, competente, e sem mácula que lhe possa ser apontada predisposto a ir para o governo? Não, ganha mais no privado sem o risco de ser arrastado na lama. Queixam-se dos sucessivos escândalos com membros do governo mas que pode Costa fazer se a área de recrutamento cada vez mais se restringe ao seu partido, a pobres de espírito dispostos a tudo, com ambições políticas, não necessariamente competentes para as áreas designadas? Costa já não tem ninguém na sociedade civil ou no partido disponível e “puro” para ser ministro, vai tapando os buracos promovendo secretários de Estado mas apostaria que uns 90% têm “problemas”; os problemas estão lá em banho-maria, como em milhões de portugueses, apenas aguardam a exposição na ribalta para se descobrirem, criar-se fricção, aquecerem os ânimos e uns quantos se escaldarem. Note-se que o clientelismo nos governos é timbre de todos os partidos, do PS ao Chega, sim ao Chega, ou acreditam que se fosse governo não teria os mesmos problemas em captar competência sem mácula? Há lá rabos de palha e sei muito bem do que falo. A imagem de clientelismo do PS deve-se ao facto de ser o partido que há mais anos governa, teve tempo e oportunidade para cimentar a impressão, se o partido do governo fosse outro as clientelas não acabariam, mudavam. No dia 11 foi detido o presidente da câmara de Espinho (do PS) por várias suspeitas de práticas ilícitas da câmara, mas segundo as notícias ele apenas manteve o legado do anterior presidente (do PSD), supostamente a pessoa que as iniciou e que ainda não foi detido porque é vice-presidente do grupo parlamentar, falta ser levantada a imunidade. Este exemplo mostra que há clientelas que nem mudam, transmitem-se ao seguinte detentor do cargo independente do partido que o elegeu. O anterior líder da oposição Rui Rio tentou trilhar o caminho da “ética”, foi afastando da sua presença quem teria “mácula” e acabou só. Ribeiro e Castro no CDS quis implantar uma marca desse género, tipo ideal cristão e não vingou sendo substituído pelo ex popularíssimo Paulo Portas.

Qual é a solução? Não sei, sei que o panorama actual resulta da falta de pensamento crítico que geralmente é encorajado através da leitura, logo, como devem calcular, solução fácil e rápida não existe. Abdicámos de pensar contudo as nossas emoções e instintos animais estão mais intensos que nunca; se à equação adicionarmos os meios de que dispomos actualmente e não têm paralelo na história doa civilização, a conclusão é só uma: tornámo-nos extremamente perigosos. Dinamarca, Finlândia, Noruega e Holanda, alguns dos países referidos no estudo de Michel Desmurget posicionam-se respectivamente em 1º ex aequo, 4º e 8º do ranking dos países menos corruptos do mundo (dados de 2021 da Transparency Intenational); o decréscimo do nível de QI avaliado aí é preocupante mas qual não será o dos portugueses cujo país se encontra no 32º lugar entre os menos corruptos? A impressão que temos é de que até deveria encontrar-se pior classificado, tal como o Brasil que surge em 96º ex-aequo com a Argentina, Indonésia, Lesoto, Sérvia e Turquia. Se os dados são fiáveis, então fiquem a saber que o Brasil está só sensivelmente a meio da tabela que inclui 180 países, imaginem os outros…

Viajei pelo declínio dos conteúdos, da manipulação e estupidificação de massas, da revolução digital, da redução do nível de QI, do clientelismo e corrupção para que se perceba o absurdo de nas democracias ocidentais as escolhas afunilarem entre Costa ou Costa, Partido Conservador ou Partido Conservador no Reino Unido, Macron ou Le Pen, Giorgia Meloni ou o caos, Biden ou Trump, Lula ou Bolsonaro, e mais um sem-número de exemplos de extremos, escolhas miseráveis ou opções únicas. Acham que é por acaso? Não, e é culpa nossa! Estas ditaduras disfarçadas de democracias resultam da ausência de espírito crítico nos povos, do massivo fomento do medo e da insegurança a todos os níveis em todas as áreas, do descrédito pelas pessoas e instituições que nos despertam os piores instintos, tornam cada ser humano num pequeno ditador. As Américas que há décadas víamos como um ideal de liberdade e diversidade têm-se mostrado uma versão hardcore, acéfalas caricaturas dos europeus, pelo menos é como entendo os ataques ao Capitólio e a Brasília obviamente tingidas com características locais de pistoleiros de westerns, no primeiro caso, e coronéis de telenovela no segundo.

Em 10 de Dezembro último a revista brasileira “Sociedade Militar” que se diz “voltada para a discussão de assuntos relacionados à segurança pública, militares, política e geopolítica”, uma entre várias fontes de doutrinação irracional camuflada de debate racional, publicava um artigo sob o título “E se Bolsonaro determinar amanhã, a intervenção militar! Quais seriam as primeiras acções, quem seria preso e quem governaria o país” onde com uma desfaçatez para mim surpreendente, disserta acerca de um hipotético golpe de Estado no Brasil como se falasse das flores e das abelhas, e afirmando que os militares “vão julgar todos os políticos corruptos” (ahahahah, que pueril). Não sei se terão algum corruptómetro para aferir, talvez não sobrasse ninguém nem os executores do plano, digo eu, mas mais à frente explica-se que “será fácil depor todos os parlamentares que se assumem como de esquerda”; ah ok, entendi, é assim que se mede. Falta saber quem mede mas isso não nos diz respeito, o estatuto moral dos militares brasileiros é superior a essa escória. O processo seguinte consistirá “no encerramento temporário do Congresso Nacional e que o Brasil seja governado por uma junta militar, que em tese seria apolítica, sem viés de direita ou esquerda”. Cá está, a solução é simples, acabar com os partidos e governar de chicote na mão, sem ideologias, apenas esta utopia de que não há ideologias, sem ideias perversas, sem… nada (?) Benvindos ao vazio total, a religião providenciará o suficiente para mitigar o espírito. Esta foi uma entre várias publicações do género, saiu um mês antes do ataque; haverá alguma relação causa/efeito? Naaaa…

Não há milagres, o mundo está mesmo infestado de demónios, tantos quanta alma há na Terra, assim temos o que merecemos, aquilo para que trabalhámos ou permitimos outros demónios trabalhar.

*Embaixador do Plataforma

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