Pesos e medidas - Plataforma Media

Pesos e medidas

As democracias ocidentais, cáusticas e moralistas quando querem, sabem bem ser benevolentes e flexíveis quando lhes dá jeito, tendo sempre em vista contas passadas e lucros futuros. Insuspeitos democratas portugueses já defendem um governo de conciliação nacional em Angola.

Porque a ascensão da UNITA é evidente – como as suspeitas de fraude eleitoral – e, ao fim de 50 anos de poder, o MPLA não vai descer do pedestal pelo próprio pé. As eleições em Angola tiveram lugar no preciso momento em que a morte de José Eduardo dos Santos, mais do que um ciclo, prenuncia o enterro do próprio regime.

O antigo presidente soube usar as urnas para simular a ilusão de uma democracia, sustentando com o petróleo uma oligarquia militarizada e o apoio da comunidade internacional.

Leia também: Tribunal Constitucional decide hoje validação ou não dos resultados eleitorais definitivos em Angola

João Lourenço não tem a mesma circunstância. Mas equilibra a diplomacia global com a do regresso aos eixos centrais da política norte-americana, em detrimento da proximidade que José Eduardo dos Santos teve, primeiro com Moscovo; depois com a China. Contudo, o desafio angolano é bem mais complexo do que se vê no tabuleiro das alianças internacionais. Depois da paz, nunca conseguiram um crescimento económico sustentável.

E, quando não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão. Há um paralelo curioso com o atual momento em Macau. Com a morte de Stanley Ho, não muda apenas o regime político; caem também por terra os próprios fundamentos do sistema económico, sem alternativa séria e credível. A China desenhou relações lusófonas – até agora falhadas, pelo menos do ponto de vista económico – e uma integração regional ainda muito inconsistente – e bloqueada por crises sucessivas no próprio Continente.

Leia também: Resultado das eleições angolanas não prejudica relações bilaterais com a China

Há uma medida incontornável, que expõe qualquer regime político, qualquer sistema económico: o índice de disrupção social. Está inevitavelmente a crescer, e vai-se ver.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Editorial

O drama da doença e a crise da cura

Editorial

Luz ao fundo do túnel

Editorial

Estratégia ou ilusão

Editorial

Macau tem de ouvir a mensagem

Assine nossa Newsletter