O porta-aviões norte-americano USS Abraham Lincoln tornou-se alvo de crescente preocupação nos Estados Unidos devido às condições enfrentadas pelos cerca de 5.000 militares que estão a bordo. A embarcação encontra-se há mais de oito meses em missão e estabeleceu um recorde moderno de permanência consecutiva no mar para um porta-aviões norte-americano.
O navio partiu de San Diego em novembro de 2025 para uma missão no Pacífico, mas acabou redirecionado para o Médio Oriente no contexto da guerra entre os Estados Unidos e o Irão. A sucessão de operações prolongou significativamente a missão inicialmente prevista.
Falta de comida, água e condições básicas
Familiares de militares têm denunciado problemas com o abastecimento e as condições de vida a bordo. Entre os relatos estão racionamento de alimentos, falta de água, problemas de canalização e períodos superiores a uma semana sem possibilidade de lavar roupa.
Também foram relatados problemas de higiene, incluindo chuveiros com bolor, falta de água quente e instalações sanitárias com avarias. Os familiares afirmam ainda que a alimentação se tornou insuficiente em determinados momentos da missão.
A situação contrasta com a posição oficial da Marinha. Em abril, o chefe de operações navais rejeitou relatos de que a quantidade ou qualidade da alimentação não cumpria os padrões exigidos, garantindo que as necessidades nutricionais estavam a ser satisfeitas.
Mais de 250 dias sem parar num porto
Um dos principais problemas apontados pelos militares é a duração da missão. O Abraham Lincoln passou mais de 250 dias consecutivos no mar, sem uma visita regular a um porto.
Normalmente, os porta-aviões fazem escalas a cada 30 a 45 dias, permitindo reabastecimento, manutenção e algum período de descanso para as tripulações. No caso do Lincoln, essas pausas foram drasticamente reduzidas.
A ausência de uma data clara para o regresso a casa agravou a situação. Familiares dizem que a tripulação passou de uma fase inicial de elevada moral, em que esperava futuras escalas e períodos de descanso, para um cenário em que muitos militares apenas querem saber quando poderão regressar aos Estados Unidos.
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Preocupações com a saúde mental
As denúncias mais graves dizem respeito à saúde mental dos militares. Famílias e congressistas norte-americanos alertaram para uma deterioração do estado psicológico de elementos da tripulação e para alegadas tentativas de militares se atirarem ao mar.
Um dos casos ocorreu a 3 de agosto, quando um marinheiro caiu ou saltou para o mar e foi posteriormente resgatado sem ferimentos graves. Segundo relatos publicados por vários meios norte-americanos, o episódio terá ocorrido durante uma crise relacionada com a saúde mental.
A Marinha, contudo, não confirmou um aumento das ideias suicidas entre os militares e garante que mantém psicólogos, médicos, capelães e outros serviços de apoio disponíveis para a tripulação.
Famílias exigem respostas
Cerca de 200 familiares participaram numa reunião com responsáveis da Marinha em San Diego para transmitir as preocupações sobre as condições a bordo. Alguns pediram às autoridades que garantam apoio psicológico e melhores condições de vida aos militares.
O caso também chegou ao Congresso. O senador Richard Blumenthal e outros congressistas pediram explicações ao Pentágono sobre a duração da missão e o impacto das condições de serviço na tripulação.
A situação ocorre numa altura em que outro porta-aviões norte-americano, o USS George Washington, está a ser deslocado para o Médio Oriente para substituir o Abraham Lincoln.
O debate deixou, assim, de estar apenas relacionado com o conforto dos militares. Para famílias, especialistas e alguns responsáveis políticos, a questão é também saber até que ponto uma missão tão prolongada pode afetar a saúde, a moral e a capacidade operacional de uma tripulação sujeita a meses consecutivos de combate e tensão.