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Se queres ver a floresta não te fixes só na árvore

João MeloJoão Melo*

Tenho um especial prazer no tema de hoje porque deve ser um dos que melhor sei sem saber nada.

Quem não acredita que as duas únicas coisas de que tive conhecimento sobre o eurofestival da canção foram uma notícia durante a semana onde se apelava a uma vitória da Ucrânia porque “seria excelente para a moral do povo e das tropas”, e outra ontem a informar que a Ucrânia ganhou, pode parar de ler aqui; os restantes, se quiserem, continuem.

Sim, é verdade, nunca ouvi uma nota que fosse de uma canção, ademais deduzo ter havido um representante português por causa de uma rede social que explora a tradicional piada dos votos que damos à Espanha e eles não dão a nós. Há pessoas que me dizem “não sabes? Então mas tu como músico…” e a partir daí não ouço mais nada, o pressuposto inquinou a restante argumentação. Presentemente, e bem, se quiser saber sobre esse festival tenho de buscar, a informação não entra pelo meu espaço. Tudo depende do universo de cada um, a minha filha assiste a festivais sobre os quais não faço a mínima ideia quem são os nomes do cartaz, e quanto a este aposto que os portugueses que vivem noutros países me compreendem, eu já o experimentei em condições rigorosas. Vivi em Londres numa época em que o certame ainda absorvia a atenção geral dos portugueses e não existia a miríade de meios de comunicação actualmente existentes; foi pois com enorme emoção que ao fim de quase um ano sem escutar uma palavra em português vi na obscura BBC 2 (que só devia ter audiência nesse espaço de tempo por causa dos emigrantes) 3 minutos de uma música banal e facilmente olvidável mas cantada na minha língua. Foi uma espécie de orgasmo, e a cada segundo decorrido eu ansiava por mais letra e menos “sons”. Cá para mim podiam ter deixado a música em casa e apenas terem recitado a letra, aliás, em resposta às pessoas que se intrigam por “eu como músico, blá blá blá”, deve ser precisamente por ser músico que nos dias que correm me custa ouvir o festival, tanto como ser obrigado a comer uma feijoada de chocos logo após ter enchido a pança num banquete. Fastio, é a palavra que me ocorre para definir a experiência do music-business em geral e do eurofestival em particular. Por não ter apetite e o prato não me ser colocado à frente, naturalmente desconheço, é simples.

Ontem soube que se realizara no sábado, a Ucrânia ganhou e no mínimo até acabar de escrever este texto não vou querer informar-me de mais nada. Será absolutamente necessário ver a faca espetada no peito da vítima para deslindar o motivo do assassino? Que interessa escutar a música se 99% das vezes o que está em causa são outros factores? Eventualmente estariam presentes na vitória do Salvador Sobral porém a música era tão boa, tão fora da lógica do evento que os arrasou por completo, qualquer que fosse a razão oculta que permitiu ganhar. Quando na semana passada ouvi na TV o apelo à vitória da canção ucraniana justificada pelos próprios como boa para a moral do país, num ímpeto questionei a quem estava comigo “então se a Ucrânia ganhar, como parece evidente, será por piedade?” Bom, de facto ganhou, e sem a ouvir a dúvida fica no ar; é o que me convém enquanto debater, afinal paradoxalmente a “música” não é para aqui chamada em 99% das vezes, mais a mais escutar os temas só atrapalha o raciocínio e eu já sabia que ganharia mesmo sem ter ouvido. Ter-se-ia dado o fantástico acaso de o produto apresentado ser realmente o melhor ou deveremos considerar que além dos variados interesses comerciais e políticos há diferentes níveis de condicionamento, uns moralmente reprováveis, outros louváveis? Obviamente que sem as circunstâncias que rodearam a edição deste ano não havia assunto, nem este texto, talvez tivesse ganho, sei lá, a Turquia? Eu não levo isto a sério mas quem leva não estará a sentir-se um niquinha desfeiteado por entrar numa competição viciada? Como reagirão os concorrentes que se esforçaram por apresentar o melhor produto possível e de que maneira lidarão com a suspeição de farsa? Vamos todos fingir que estamos a competir, abdicando do propósito de um concurso em prol de um valor mais elevado? Como ficará a moral dos que perderam, ganharão despeito pelo vencedor? Como ficará a moral do povo beneficiado pela “oferta”, mais forte? Ah pois, deve ter dado cá um jeitão a quem tem de se preocupar em não levar com um míssil no capacete… Jeito dá aos intérpretes vencedores e às autoridades ucranianas, para o ano podem organizar um show comovente, brutal mesmo. Ao intervalo haverá uma participação musical de Selena Gomez com os Coldplay, Zelenski falará por videoconferência sendo aplaudido de pé no auditório, no final Bono dos U2 fará um discurso emotivo e cantará um tema especialmente composto para o evento chamado “war nevermore”, antes de entregar o troféu do primeiro prémio ao vencedor. Saiu o jackpot a todos, até à produção do certame.

A música no eurofestival é só um aspecto formal para decidir quem ganha, o processo geralmente compõe-se de outros interesses. Assim um vulgar espectáculo da lógica de mercado tornou-se num instrumento político para sinalizar o apoio da Europa à Ucrânia, o tipo de manobra que conhecemos desde o tempo de Salazar. O normal seria ouvir as autoridades ucranianas agradecerem a oferta como agradecem o material de guerra e os mantimentos doados, porém devido a tratar-se de um truque mediático que serve mais para limpar a consciência da Europa, é melhor todos se quedarem pelo cinismo, a principal característica orgânica da diplomacia. Eu, se fosse músico ucraniano, estaria agora a pensar qual teria sido o especial mérito do meu representante, se não teria sido alvo de paternalismo; no fundo estaria a pensar se a Europa ao pretender transmitir um gesto de grandeza, menorizou o meu país. Qual seria a diferença do tema português para o ucraniano, por exemplo? Vou especular: nenhuma. Todos têm uma emoção muito profunda inspirada numa história pessoal ou um disparate, quanto mais kitsch melhor; a trend do momento ditará o género vencedor. Por não haver nada de especial que ao longo dos anos distinga os temas apresentados (com a notável excepção do Salvador) o que define a vitória são fundamentos exteriores à música A ou B, daí não ter sequer interesse em escutar alguma. No entanto aprendi ontem que existe a forte possibilidade de Portugal ganhar um dos próximos eurofestivais caso se dê o aguardado grande terramoto de Lisboa, basta sugerir que isso levantaria a moral do povo em sofrimento e não importava se o representante fosse pior que o inenarrável Conan Osíris, limpava aquilo tudo!

Em relação a este ano restam-me apenas duas curiosidades mas também não é importante, daqui a bocado já me esqueci: 1- quem nos representou e em que lugar ficou? e 2- a Rússia participou? Claro que esta última é puramente retórica, adivinho de antemão a resposta.

O título poderia ser um provérbio eslavo mas não é, foi uma criação martelada para justificar o texto.

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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