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A escala do observador

João MeloJoão Melo*

Considerado pela NASA “potencialmente perigoso”, o asteróide 2001 FO32 passou ao largo da Terra no primeiro dia da Primavera. Um navio porta-contentores encalhou no canal do Suez, afectando 12% do comércio global. Um vulcão na Islândia entrou em erupção, há 11 anos outro causara o caos no espaço aéreo europeu. Quanto à actual pandemia é escusado tecer considerações, estamos carecas de a saber, e poderão surgir novas vagas do mesmo modo que pode irromper no próximo minuto um terramoto de intensidade semelhante ao de 1755, os geólogos esperam-no, só desconhecem quando virá. Dei alguns exemplos somente das duas últimas semanas, novos aparecerão amanhã para sustentar esta ideia: vivemos presos por arames. A precariedade da nossa existência é real, não a notamos porque o tempo da vida humana é demasiado curto, há quem logre nascer e morrer num conjunto de circunstâncias supostamente tranquilas. A “normalidade” do mundo afere-se em função do ponto de vista, porém em termos absolutos não há normalidade. Ela chega a sugerir ter pautado a vida inteira de alguém ou a de muitas gerações, não obstante, do ponto de vista do universo, a “normalidade” dá-se em menos de um piscar de olho, no intervalo de tempo entre duas catástrofes. Somos tão jovens e fugazes que não há memória de nenhuma, a humanidade existe à custa das consequências criadas pela última. Obviamente que a um nível microcósmico as obras da Expo 98 foram uma catástrofe para as colónias de formigas da região, assim como para nós um terramoto é uma catástrofe, depende da escala do observador; o problema é que nos acometemos a divagar por perspectivas amplas apenas quando estamos pessoalmente vulneráveis ou algo corre mal no plano colectivo, ainda assim tendemos a encolher o foco até ao particular. 

Há 100 anos houve uma epidemia catastrófica, há 75 acabou uma guerra mundial, e por não as termos sentido desdenhamos a informação que nos impediria de repetir erros, preferindo o barómetro emocional de pessoas que sobre qualquer evento dizem “nunca vi nada assim em 50 anos de vida”. Apetece-me sempre perguntar “então, e depois?” A vida é o que é, a nossa capacidade de sistematização de dados, análise, e estratégia adaptativa é que deveria ser valorizada, mais que as sensações do momento. O que seria da cidade de Lisboa sem o pragmatismo do marquês de Pombal que percebeu num evento catastrófico a oportunidade para a modernizar? Por muito que nos custe aceitar, em rigor o mundo não se mede através dos sentidos. Agora após a pandemia de covid parece que o espanto já não provoca espanto, o Sporting está prestes a ganhar o campeonato, o Passos Coelho é uma hipótese falada para liderar a direita, Elon Musk que surpreendeu o mundo alterando o paradigma dos combustíveis fósseis, usa-os para ir ao espaço, e os seus foguetes rebentam como qualquer outro. Contudo, quando e se voltarmos à “normalidade” não tardará a que os efeitos da “anormalidade” se dissipem. Sim, habituamo-nos a tudo mas enquanto não integrarmos no espírito a visão em larga escala seremos somente robots agindo de maneira condicionada para ver o que quiserem que vejamos, e com a agravante de nos acostumarmos a essa aberração, distanciando-nos do nosso potencial de desenvolvimento. A realidade que quiserem que vejamos é uma programação transmitida via sentidos, já previamente estimulados para toldarem a razão, seja pelo choque, o massacre de determinado assunto, divertimento, ou destes factores combinados; depois de assimilada converter-se-á na nossa realidade, e ao naturalmente reproduzi-la, cada um de nós torna-se num agente da sua propagação e manutenção. Não é necessário alguém assumir a autoria, o engodo sensorial monta por si próprio a dinâmica colectiva. Infelizmente julgo que iremos superar a actual catástrofe (à nossa medida) sem aprendermos as verdadeiras lições que proporciona.

Conheço muitas pessoas receosas das grandes escalas; eu receio as pequenas: a aparente segurança que nos providenciam é potencialmente mais perigosa, aprisionam-nos numa ilusão. E também não entendo por que a genuína noção de fragilidade em relação ao cosmos consegue gerar tanta angústia; p’lo contrário, julgo que liberta e faz com que celebremos a vida tal como ela é, uma passagem por esta dimensão cujo propósito é deixá-la melhor do que a encontrámos.

*Músico e embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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