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Efeito borboleta

João Melo*

Apresentava programas de televisão, tinha uma banda de sucesso, e num momento de pausa pus-me a pensar: como é que eu cheguei aqui? A banda era conhecida muito por causa da exposição mediática, e pelo facto de eu apresentar programas. Comecei a apresentá-los porque um produtor quis fazer um casting comigo, depois de nos ter visto actuar. O sítio onde actuávamos era gerido pelo J, onde conheci os outros elementos e formámos a banda. O J convidara-me primeiro para lá actuar após saber que eu era músico. Conheci o J por intermédio do E, o rapaz que até encontrar o J vivera em minha casa meio ano enquanto dizia que o procurava, e ao qual dei trabalho no meu bar porque não tinha nada, contra a vontade da minha mulher que me crucificou por meter um estranho em casa. Viera do Brasil de mãos a abanar em busca de uma vida melhor, esperando que o tal amigo J o ajudasse, mas não possuía sequer o seu contacto. Fez-se à aventura porque era louco, tanto quanto eu fui louco em engolir esta história e nem a questionei; só vi um pobre diabo a vaguear à porta do meu bar às 3h da manhã, sem ter onde dormir… Percebi assim, anos depois, que o entrelaçamento quântico que me conduziu ao sucesso na carreira se originou num ponto específico do tecido espaço-temporal, movido por um acto de genuína (ou louca, se preferirem) solidariedade. 

Talvez com a “loucura” de todos nos abrirmos à mudança, criando laços de solidariedade, e conforme o aforismo de Einstein

O mundo é o que fazemos dele, e o seu tempo intangível, imensamente maior que o da nossa limitada existência. As acções têm consequências, seja no imediato ou a longo prazo. Deixamos às gerações vindouras uma Terra doente, em convulsão, da mesma maneira que os nossos antepassados nos deixaram a herança com a qual hoje lidamos; o presente é o resultado de tudo o que nos antecedeu. Não digo que sou a favor ou contra o derrube de estátuas, estou a dizer que quem desconhece o passado não entende o presente, logo, não tem futuro. Não pretendo justificar os actos de vandalismo, estou a tentar compreendê-los. Observo que o principal motivo para a revolta vem de fatias da população que sentem não ter futuro, e que para contrariar o destino necessitam de reparar o passado, já, ainda que de modo prosaico. No fundo é um acto de sobrevivência que obviamente gera resistência. A História é escrita pelos vencedores, contudo estes parecem esquecer que os vencidos andam cá, vivem entre eles. Como resolver isto? Talvez com a “loucura” de todos nos abrirmos à mudança, criando laços de solidariedade, e conforme o aforismo de Einstein, um cientista que, presumo, relativizaria o derrube de uma estátua sua: “não se pode resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”.

*Músico e embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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