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“O futuro dos oceanos está muito ligado ao papel da China”

As grandes empresas ligadas ao mar estão em Hong Kong esta semana para a “Sustainable Ocean Summit”. Em cima da mesa estão os muitos problemas e soluções para proteger esse vasto e precioso recurso que se encontra ameaçado pela poluição em grande escala. 

O presidente da entidade organizadora, o World Ocean Council – que congrega empresas do setor – diz que ainda se está a tempo de salvar os oceanos, mas é preciso agir rapidamente. E a China tem um papel muito importante.  

Plataforma – Esta é a sexta edição da Sustainable Ocean Summit. O que foi alcançado ao longo destes anos? 

Paul Holthus – Temos vindo a reunir os mais variados sectores da comunidade empresarial ligada aos oceanos e desenvolvimento sustentável. Tem havido um incremento na sensibilização e compreensão do que está em causa, nomeadamente a natureza interrelacionada entre as diferentes atividades e a necessidade para uma coordenação global multi-setores para responder aos problemas que se colocam para o futuro dos oceanos e das atividades empresariais ligadas ao mar. 

– Fala de uma necessidade de coordenação global. Quer isso dizer que há que melhorar o sistema de governação global que envolva empresas, governos, organizações internacionais e não-governamentais?  Estamos no bom caminho?

P.H. – Sim, acho que estamos. No World Ocean Council temos feito muito para facilitar essa ligação entre os vários atores. O que queremos alcançar é um entrosamento mais sistemático entre os agentes na indústria, de forma proativa.

 – O nome da conferência é Sustainable Ocean Summit, ou seja SOS. Será possível agir a tempo para salvar os oceanos? 

P.H. – Creio que ainda estamos a tempo de salvar os oceanos. Sabe, sou um otimista. Não estaria a fazer isto se não fosse um otimista. Os desafios e problemas não vão desaparecer. Alguns estão a ser resolvidos, ao passo que surgem outros. Podemos, coletivamente, abordar estes desafios através de um esforço concertado da comunidade empresarial em parceria com governos, organizações internacionais e a sociedade civil. Mas há muito por fazer. Implica um nível de confiança e colaboração entre os diferentes setores da  sociedade para lidar com isto.

– Os sinais de alarme estão por todo o lado. Um relatório publicado recentemente na revista Current Biology refere que apenas 13 por cento dos oceanos mantém os seus ecossistemas intactos. Quando olha para estes dados não perde a esperança? Estão os governos e as empresas mesmo conscientes do que está em causa?

P.H. – Bem, temos histórias de sucesso resultantes da ação concertada da indústria com autoridades. À escala global ao longos dos anos, a indústria naval e de transporte marítimo juntamente com a Organização Marítima Internacional desenvolverem regras sobre poluição marítima e identificaram os requisitos para a não descarregar de petróleo e resíduos sólidos e óleo dos motores dos navios nas águas. Foram assim criados regulamentos através de consultas entre o setor e governos e organizações internacionais. Tem havido uma redução verificada de poluição nos mares oriunda de navios.

Precisamos de ter níveis semelhantes de coordenação para resolver outros problemas desenvolvendo regras.  Isto só é possível através de um esforço colaborativo porque os governos nunca vão ter a capacidade de supervisionar a aplicação dessas regras num espaço tão vasto como o oceano. Precisamos de passos que possam ser documentados e verificados independentemente para avançar. 

– Um outro problema em larga escala é o plástico. O que fazer para evitar que os oceanos não se “afundem” num mar de plástico?

P.H. – O problema do plástico faz parte de um problema mais abrangente dos resíduos sólidos no oceano. A maior parte desse plástico, cerca de 80 por cento, tem origem em terra, em sete países todos eles localizados na Ásia. O primeiro aspeto sobre plástico nos oceanos é a gestão do problema em terra, nas zonas costeiras e bacias dos rios. Da nossa perspetiva, a partir dos oceanos, julgamos que é preciso garantir que as atividades empresarias com base no mar como o transporte marítimo e embarcações de pesca não possam fazer descargas no mar. No transporte marítimo há várias regras. Por outro lado, é preciso que haja como e onde descarregar os resíduos em terra, nas zonas costeiras. 

– Esta conferência decorre em Hong Kong, um centro internacional para a indústria naval e de transporte marítimo de mercadorias. Como encara o processo de integração no Delta dos Rio das Pérolas e questão da gestão conjunta de recursos hídricos e marinhos nas cidades costeiras de Guangdong?

P.H. – Penso que é uma forma muito prática de abordar a questão do desenvolvimento das zonas costeiras e das cidades do estuário. Trazer as cidades para a mesma mesa juntamente com as autoridades e empresas ligadas ao turismo, aquacultura ou transporte marítimo para um bom entendimento sobre a preservação dos ecossistemas. Considero este um desenvolvimento importante. É por isso que estamos aqui em Hong Kong com esta conferência. 

– E a China terá que fazer parte da solução à escala global…

P.H. – Sim, absolutamente. Nesta conferência procuramos ligar a Ásia ao mundo, mas por Ásia queremos dizer sobretudo a China. 

As grandes empresas navais e de transporte marítimo estão localizadas aqui na China, quer ao nível da indústria de construção naval, aquacultura ou pesca. O futuro dos oceanos está muito ligado ao papel da China. 

José Carlos Matias em Hong Kong 16.11.2018

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