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“Para o nível de vida americano precisamos de cinco planetas”

Amitav Ghosh, o escritor de maior renome internacional presente no Festival Literário de Macau, diz que a crise ambiental acelerou com a queda do Muro de Berlim. Há 36 anos, o chamado "Consenso de Washington" vendeu a ilusão de que todo o mundo poderia viver o sonho americano. Contudo, para toda a gente comer desenfreadamente, ter dois carros, e esse nível de vida, "precisamos de cinco planetas"

Paulo Rego

– Dez anos após ter escrito “O Grande Desatino”, célebre como alerta ambiental, diz agora que, provavelmente, não voltaria a focar-se no tema das alterações climáticas. Porque acha que causa já está perdida? Ou porque, perante as guerras, e tantas outras crises em simultâneo, já não vê sentido em focar-se do drama ambiental?

Amitav Ghosh – Sabe que, quando me pus a escrever esse livro, estava de facto muito focado no problema das alterações climáticas. Contudo, de lá para cá reconheço que a perda da biodiversidade, por exemplo, é provavelmente um drama ainda maior. A extinção de inúmeras espécies, quer animais quer vegetais, é certamente um grande problema. Por outro lado, as nossas redes de abastecimento alimentar tornaram-se incrivelmente frágeis; completamente dependentes de fertilizantes industriais. Neste momento do Golfo estão todos a falar da crise do gás e do óleo; contudo, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, a maior de todas será a dos fertilizantes.

– Mais cedo ou mais tarde vem também aí a escassez da água, que vários autores anunciam como fonte das próximas guerras…

A.G. – Sim, essa parece também inevitável. A questão é que há tantas outras dimensões para estas crise em que vivemos, que deixou de fazer sentido estarmos apenas focado numa coisa, como nas alterações climáticas.

– Na base de todas essas crises estará um défice civilizacional? O problema está no sistema de valores, e comportamentos; ou parece-lhe que a crise é sobretudo política, no sentido em que faltam lideranças, visão, legitimidade e coragem para se alterar o curso das coisas?

A.G. – Atrás de todas essas crises, quer falemos sobre água, os alimentos, seja o que for… o que está a acontecer é uma espécie de aceleração de todas as coisas; fenómeno que teve o seu início na década de 1990. É nessa altura que se começam a acumular os gases de carbono na atmosfera; há não mais de 36 anos.

Se todo mundo vivesse como os americanos, precisaríamos de cinco planetas. Esse é o verdadeiro problema de fundo.

– Qual é o motivo desse ponto de viragem?

A.G. – O que é que aconteceu nessa altura foi o desmoronamento da antiga União Soviética; e, com isso, o estabelecimento de um certo tipo de ideologia, que veio a ser conhecida como o Consenso Washington.

– Que consenso é esse?

A.G. – Basicamente, é a ilusão de que todo mundo deveria – e poderia – viver o sonho americano; com os padrões de consumo dos norte-americanos: dois carros, um frigorífico, mais isto, mais aquilo… Bem, o que nós hoje sabemos é que o mundo não pode viver assim. Talvez todos queiramos isso, mas para termos todos o nível de vida americano precisamos de cinco planetas. Esse é o verdadeiro problema de fundo.

– Quer dizer que todo e cada indiano, cada chinês, comer bife, andar de carro e avião… ou seja, se finalmente atingirem o nível de vida que querem e ao qual sentem ter direito, estamos a caminho do suicídio coletivo?

A.G. – Exatamente, estamos a caminho de um suicídio coletivo.

– Como é que se diz a milhões e milhões de pessoas que, não tendo ainda tido a oportunidade de alcançar outros viveram a ocidente, não podem ou não devem lá chegar?

A.G. – Esse é exatamente o problema; é um dilema fundamental. A verdade é que a única forma de mudarmos o que está a acontecer é abandonarmos uma certa ideia de riqueza: se as pessoas mais influentes, nos países mais ricos, começarem a inverter o seu ideal de vida; se, em vez de estarem sempre obcecadas com o crescimento e a expansão, inverterem o foco para a redução do consumo e dos comportamentos poluentes. Na verdade, já há muitos jovens a fazerem isso; a sairem dessa armadilha, a voltarem à terra e à agricultura. Se esse tipo de movimentos se tornarem suficientemente fortes, talvez isso possa ainda fazer a diferença.

– Acha realmente possível? Olhando para o mundo como ele é hoje, não parece nada estarmos nesse caminho de recuo…

A.G. – Por acaso até acho que estamos neste ponto de inflexão. Essa ideologia que foi globalizada, da década de 1990 em diante, está profundamente deslegitimada; acho que por causa das tensões geopolíticas, por causa de tudo o que estamos a ver acontecer, por causa das guerras… Acho mesmo que está profundamente deslegitimada.

Vai ser mau; disso já não nos livramos; mas talvez não seja o pior dos cenários. Vamos ver o que acontece e ter esperança

– Há então espaço e tempo para formas alternativas de pensar?

A.G. – Sim; acho que essas coisas vão surgir.

– Como é que se podem acelerar novas formas de pensar, novas ideologias políticas? À velocidade em que é preciso para combater os males desse sonho americano?

A.G. – Na verdade até já parece impossível; uma coisa que podemos hoje observar é que a velocidade a que todas as coisas do mundo estão a acontecer… muito, muito rápido; muito mais rápido do que poderíamos imaginar. Então… quem sabe?

– Há muito fomos assaltados pelo inimaginável; coisas que não podíamos prever; ou que prevíamos ser impossíveis: guerras, a crise de valores, perda da biodiversidade, alterações climáticas… muitas delas piores do que poderíamos ter imaginado…

A.G. – Estamos nesta altura num ponto em que as opções que tomamos parecem ir de mal a pior; aquilo que se chama a trajetória para o abismo. Percebemos que vêm aí grandes disrupções no caminho; sabemos isso. Mas também não é garantido que venha aí o pior dos cenários. Se forem feitas mudanças cruciais, talvez ainda haja hipótese, digamos, de inverter alguma coisa. Vai ser mau; disso já não nos livramos; mas talvez não seja o pior dos cenários. Vamos ver o que acontece e ter esperança.

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