– Em 2023 afirmou que Macau precisava de mão-de-obra local mais qualificada e de melhores condições de trabalho para atrair empresas internacionais. Estes fatores continuam a limitar a atratividade da cidade?
Alessandro Lampo – Vim pela primeira vez a Macau em 2007. Desde então, vi a cidade mudar de muitas formas. O ambiente é diferente, especialmente na zona do Cotai, mas o que tem sido ainda mais notório é a forma como os objetivos da cidade evoluíram ao longo dos anos.
Em 2023, o foco estava na recuperação. Hoje, vemos uma cidade a avançar rumo à estratégia de diversificação “1+4” em setores-chave como o turismo integrado, os serviços financeiros modernos, a alta tecnologia e a ‘Big Health’. Assim, o principal desafio amadureceu a ponto de já não se tratar de diversificação, mas de a executar a um nível de classe mundial.
Talvez o desafio mais premente seja saber se temos o capital humano necessário para tornar estes setores competitivos e sustentáveis a longo prazo. Construir a infraestrutura física para albergar instituições financeiras de renome é uma coisa, mas construir uma equipa reconhecida globalmente em inovação de fintech é outra. Isto leva-nos à questão da atratividade para as empresas internacionais.
E de que forma pode Macau tornar-se atrativo para as empresas internacionais?
A.L. – Pode aproveitar o seu estatuto único de RAE [Região Administrativa Especial], a sua rica diversidade cultural e a integração na Grande Baía para criar uma proposta de valor convincente. Mas, para uma empresa internacional fora do Jogo, a decisão de investir aqui ou noutro local resume-se, em última análise, às pessoas e ao ecossistema profissional em que opera.
Uma política de apoio é essencial, mas não é suficiente. As empresas de classe mundial exigem acesso imediato a um conjunto de talentos técnicos, jurídicos e comerciais. Um ambiente profissional integrado é uma vantagem competitiva para os negócios, e o seu desenvolvimento contínuo continua a ser um foco fundamental para a atratividade de Macau.
A educação local também desempenha um papel importante. Penso que é necessário desenvolver programas, nos quais as universidades e indústrias-alvo concebem cursos em conjunto, para alinhar o desenvolvimento de competências com as necessidades do mercado. É importante apoiar oportunidades de aprendizagem contínua em diferentes áreas, para que Macau não seja apenas um local de trabalho, mas também um local onde os profissionais possam permanecer, crescer e construir carreiras a longo prazo.

O sucesso de Macau reside em como aproveita o seu estatuto único de RAE para prestar serviços de classe mundial. (…) Se conseguimos construir e reter o talento necessário para tornar Macau um centro de inovação crítico no ecossistema da Grande Baía. Esta é a luta para as próximas duas décadas
– Quais são os principais constrangimentos que dificultam o desenvolvimento e a diversificação local?
A.L. – A economia de Macau está otimizada para turistas de luxo. Penso que a verdadeira diversificação significa construir uma cidade que, em primeiro lugar, melhora a qualidade de vida de quem aqui vive. Por exemplo, os preços dos imóveis comerciais são calibrados para o Jogo. Isto faz com que os jovens empresários pensem duas vezes antes de abrir uma loja de café. Além disso, a tendência dos residentes irem a Zhuhai fazer compras e para entretenimento está a crescer. Não se trata apenas de preços mais baixos, mas também de muitas escolhas e vitalidade. Para além de criar novas indústrias, uma política de diversificação deve também abordar a falta da “economia quotidiana”, que sustenta a vida normal de uma cidade e dos seus residentes. Existem iniciativas promissoras apoiadas pelo Governo a este respeito, como os mercados pop-up locais e a revitalização de certos distritos. No entanto, estas não devem ser soluções temporárias, mas sim evoluir para características mais permanentes da economia local e, possivelmente, como atrações turísticas.
– E Hengqin tem capacidade para ajudar nessa diversificação?
A.L. – Sim, penso que Hengqin oferece a escala e as oportunidades que faltam a Macau. Para que este potencial seja totalmente alcançado, a “conectividade suave” é tão importante como a infraestrutura física. Por exemplo, um fator de sucesso é o tráfego transfronteiriço diário. Permitir que os residentes conduzam um veículo matriculado em Macau dentro e fora de Hengqin sem restrições, beneficiaria o seu desenvolvimento como uma verdadeira extensão de Macau. Acredito que essa facilidade de movimento é o que tornaria Hengqin um bom local para viver, trabalhar e desenvolver.
– Acredita que o Jogo continuará a desempenhar o papel principal na economia local até 2049?
A.L. – É altamente provável que o Jogo e o Turismo continuem a ser um pilar muito significativo da economia num futuro previsível, dado a sua presença e contribuição económica. O objetivo até 2049 não é necessariamente reduzir a dimensão absoluta do Jogo, mas garantir que outros setores cresçam substancialmente.
A economia de Macau está otimizada para turistas de luxo. Penso que a verdadeira diversificação significa construir uma cidade que, em primeiro lugar, melhora a qualidade de vida de quem aqui vive
– A integração económica entre Macau e a Grande Baía será a prioridade?
A.L. – Vejo a integração como a plataforma onde o nosso verdadeiro desafio de permanecer competitivo em indústrias não relacionadas com o Jogo será testado. O sucesso de Macau reside em como aproveita o seu estatuto único de RAE para prestar serviços de classe mundial. A questão é se conseguimos construir e reter o talento necessário para tornar Macau um centro de inovação crítico no ecossistema da Grande Baía. Esta é a luta para as próximas duas décadas.
Macau progrediu na construção da sua marca como centro de negócios lusófono e plataforma da Grande Baía. Agora, para fazer a transição para um verdadeiro centro comercial, o foco deve mudar para o marketing operacional e a criação de valor para o cliente. Vejo produtos dos Países de Língua Portuguesa (PLP) nas exposições aqui em Macau, e isso é ótimo. Mas depois pode ser difícil terem acesso a uma grande distribuição e alcançarem os consumidores locais. Algum esforço deve ser dedicado à investigação sobre os PLP e a Grande Baía para melhor compreender o que o mercado realmente quer.
– Como pode a IA ajudar a desenvolver a economia local? Acredita que a sua adoção progrediu a um ritmo adequado, ou ainda está atrás da China continental?
A.L. – Tal como não podemos viver sem eletricidade hoje, não conseguiremos viver sem ferramentas de IA num futuro próximo. O potencial da IA está em resolver problemas quotidianos e preparar-nos para um mundo que já está a mudar.
Comparar Macau com a China continental não é totalmente justo. O continente tem um vasto ecossistema digital e uma grande escala de mercado, o que acelera naturalmente a adoção de tecnologia.
O percurso de Macau é diferente; as nossas forças estão no foco e na qualidade, em vez da velocidade ou dimensão. Por exemplo, a integração da IA na gestão de locais patrimoniais, equilibrando o crescimento do turismo com a preservação cultural, reflete a nossa identidade como centro mundial de turismo e lazer. No que diz respeito à educação, penso que não devemos “ensinar IA”, mas sim “ensinar com IA”. Os alunos devem desenvolver um novo tipo de literacia que não seja apenas a capacidade de fazer melhores perguntas à IA, ou seja, prompt engineering, mas sim o pensamento crítico, a resolução de problemas e o juízo ético aplicados à tecnologia. Este é o conjunto de competências que os torna únicos, quer venham a trabalhar num negócio da família, num resort integrado ou no setor público.