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“Macau pode inspirar outras diásporas lusófonas”

Macau deve afirmar-se como plataforma de ligação entre o espaço lusófono e a Ásia, diz Rui Marcelo, conselheiro do Conselho Regional da Ásia e Oceânia (CRAO), onde a comunidade local funciona como “ponte estratégica” e “laboratório vivo”, com potencial de replicação noutras geografias.

Nelson Moura
– Qual o papel da comunidade portuguesa em Macau e na China no futuro da lusofonia global?

Rui Marcelo – Uma ponte estratégica e um laboratório vivo. Uma ponte, porque conecta o mundo lusófono ao dinamismo asiático. Um laboratório, porque aqui se testam diariamente modelos de intercâmbio cultural, económico e educativo que podem inspirar outras diásporas. O seu papel é ser um exemplo de adaptação sem perda de identidade.

As questões mais frequentemente levantadas pela nossa comunidade empresarial giram em torno dos desafios práticos de entrada e consolidação no mercado

– Que questões têm sido levantadas pela comunidade empresarial portuguesa sobre o mercado chinês?

R.M. – Elas giram em torno dos desafios práticos de entrada e consolidação no mercado: a complexidade regulatória local, a identificação de parceiros de confiança, a gestão de diferenças culturais nos negócios e o acesso a informação de qualidade e atualizada. O papel do CRAO é claro e complementar: atuar como uma ponte e um ‘sensor’ da comunidade.

Podemos mapear e agregar estas dúvidas e dificuldades recorrentes junto dos nossos empresários; direcionar de forma eficaz estes profissionais para os serviços especializados da AICEP e para a rede consular, que dispõem dos instrumentos técnicos e dos contactos oficiais para os apoiar; e colaborar na organização de sessões de informação, em parceria com a AICEP e o Consulado, que abordem estas temáticas de forma prática.

Desta forma, não duplicamos funções, mas potenciamos o impacto das entidades oficiais, garantindo que as suas ações respondem às necessidades reais sentidas no terreno pela nossa comunidade.

– A questão dos BIR para portugueses tem sido abordada com as autoridades de Macau? O Conselho tem planos para tentar recuperar esta via de entrada profissional de portugueses em Macau?

R.M. – Esta é uma matéria de política de imigração que está exclusivamente na esfera de competência das autoridades de Macau e da diplomacia portuguesa.

O CRAO, enquanto órgão consultivo das comunidades, acompanha o impacto destas medidas na vida dos nossos compatriotas e pode, através dos canais próprios do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), fazer chegar essas preocupações às entidades portuguesas competentes. A interlocução formal sobre estas regras cabe, naturalmente, ao nosso Consulado-Geral em Macau ou à sua tutela, o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

O CRAO pode atuar como um facilitador, direcionando os recém-chegados para a rede de apoio já existente e robusta: os serviços do Consulado-Geral, as associações locais e o IPOR

– Que medidas gostaria de ver implementadas para facilitar a integração dos portugueses que chegam à Ásia, especialmente a Macau e à China?

R.M. – O CRAO pode atuar como um facilitador, direcionando os recém-chegados para a rede de apoio já existente e robusta: os serviços do Consulado-Geral, as associações locais e o IPOR. O desenvolvimento de um ‘Guia de Chegada’ digital, feito em estreita colaboração com estas entidades, agregando e divulgando de forma útil a informação que já produzem, talvez fosse uma solução interessante e inovadora.

– Como pensa reforçar os canais de diálogo para que os portugueses residentes nestas regiões se sintam verdadeiramente representados?

R.M. – A representação eficaz baseia-se numa escuta ativa e estruturada. O CCP já dispõe de um instrumento fundamental para este fim: as suas Comissões Temáticas (Ensino de Português, Cultura, entre outras).

A estratégia do CRAO passa, precisamente, por ativar e dinamizar o trabalho destas comissões a nível regional. Isto pode concretizar-se através da organização de Fóruns ou Sessões de Auscultação Regionais, em colaboração com as comissões, focados em temas específicos como oportunidades de negócio, preservação cultural ou desafios da integração.

Desta forma, em vez de criarmos estruturas paralelas, potenciamos os canais oficiais de diálogo do CCP, assegurando que as preocupações dos portugueses da Ásia e Oceânia são canalizadas de forma organizada para as estruturas competentes, que as transformarão em pareceres e recomendações dirigidas ao Governo português.

A língua é o nosso bem mais precioso. O CRAO pretende atuar como um facilitador de parcerias entre instituições de ensino portuguesas e as escolas e universidades da região que oferecem português.

– Que planos e objetivos tem para o seu mandato?

R.M. – O plano assenta em três pilares: Escutar, Ligar e Divulgar. Estamos a estruturar um mapeamento das necessidades da comunidade e a reforçar parcerias com associações. O primeiro marco público deste mandato foi a mensagem de princípios para 2026, que reafirma o nosso compromisso com transparência e serviço. O passo seguinte é transformar esse compromisso em projetos mensuráveis, que serão apresentados à comunidade em devido tempo.

– Que iniciativas estão previstas para promover o ensino da língua portuguesa e a preservação da cultura lusófona entre as novas gerações na Ásia?

R.M. – A língua é o nosso bem mais precioso. O CRAO pretende atuar como um facilitador de parcerias entre instituições de ensino portuguesas e as escolas e universidades da região que oferecem português. Apoiar a formação de professores e a partilha de recursos pedagógicos são objetivos-chave. A cultura é igualmente vital; pretendemos destacar e apoiar eventos culturais lusófonos já existentes, dando-lhes maior projeção.

– Como apoiar os portugueses que procuram oportunidades de trabalho ou negócios na Ásia ou na China?

R.M. – A estratégia passa pela partilha de informação qualificada. O CRAO pode, por exemplo, coorganizar com o Consulado-Geral ou a AICEP sessões de informação sobre mercados, partilhando a palestra com especialistas destas instituições. O foco é ser um complemento útil à sua ação.

– Há planos para criar redes de contacto entre empresários portugueses e asiáticos que facilitem a cooperação económica?

R.M. – Sim, e esse esforço integra-se perfeitamente na iniciativa ‘Portugal Nação Global’, recentemente apresentada pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. Emídio de Sousa, que tem como um dos seus pilares a ‘Rede Global da Diáspora’ para a promoção económica.

O CRAO, enquanto braço regional do CCP, tem aqui um papel fundamental: ser o elo de ligação e identificação. O nosso objetivo não é criar estruturas paralelas, mas sim potenciar esta rede nacional, identificando e mobilizando os empresários e investidores lusófonos da nossa região e mapeando as oportunidades locais que possam interessar a Portugal.

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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