Essa vulnerabilidade ficou bem patente na semana passada (27-31 de julho), depois de um forte sismo de magnitude 7,1 ter atingido a cidade de Kumamoto, no sul do Japão, e provocado 34 mortos e centenas de feridos. As equipas de emergência tiveram um enorme trabalho no resgate de sobreviventes presos sob os escombros de um centro comercial parcialmente desmoronado e de uma fábrica danificada.
O Japão contabiliza cerca de 20% dos sismos de magnitude igual ou superior a 6,0 registados em todo o mundo e regista até 2.000 tremores de terra sentidos todos os anos, avança a Reuters.
As razões para este fenómeno remontam à particular configuração geológica do país. O Japão situa-se no ponto de convergência das placas do Pacífico, da América do Norte, da Eurásia e das Filipinas. Ao longo da costa de Kyushu, a placa das Filipinas mergulha sob a placa Euroasiática, ao longo da fossa de Ryukyu e da fossa de Nankai, a um ritmo de vários centímetros por ano.
Leia também: Japão regista primeiro “dia de calor cruel” com temperaturas acima dos 40 graus. O que significa a nova designação
No o centro e sul de Kyushu, esta placa torna-se acentuadamente mais íngreme à medida que desce, um processo que, aliado à contínua expansão da vizinha fossa de Okinawa, puxa e estica a crosta terrestre da região central de Kyushu.
Este estiramento deu origem à fossa de Beppu-Shimabara, um vale com fendas que atravessa a ilha de leste a oeste e onde o solo está a ser continuamente distendido e cruzado por falhas propensas a ruturas súbitas, refere a Firstpost.
O sismo de terça-feira teve origem na falha de Hinagu, parte de uma rede mais ampla de falhas ativas e pouco profundas que atravessam a região de Kumamoto.
Como estas ruturas ocorrem tipicamente a profundidades entre 5 a 15 quilómetros, muito menores do que as dos grandes sismos que se dão ao largo da costa, as ondas de choque resultantes percorrem uma distância mínima até chegarem à superfície. Isto provoca abanões intensos e concentrados exatamente por baixo de zonas densamente povoadas.
Leia também: Sismo de magnitude 5,0 atinge Yunnan e ativa resposta de emergência. Equipas avaliam impacto no terreno
Uma dinâmica semelhante esteve na origem do sismo de Kumamoto em 2016, quando uma rutura pouco profunda gerou forças de aceleração do solo suficientemente fortes para arrancar edifícios das próprias fundações.
A presença do Monte Aso, um dos maiores vulcões ativos do mundo, acrescenta ainda mais risco à equação: fluidos aquecidos e vapor provenientes de câmaras magmáticas subterrâneas infiltram-se na rocha que envolve o sistema de falhas, funcionando como uma espécie de lubrificante que facilita a libertação súbita da tensão tectónica acumulada.
Os solos moles e saturados de água, compostos por cinzas vulcânicas e sedimentos fluviais que caracterizam grande parte da planície de Kumamoto, amplificam ainda mais o abanão à superfície e aumentam o risco de liquefação do solo nas zonas mais baixas.
Os sismos têm marcado a história japonesa há séculos, desde os que devastaram cidades feudais construídas em madeira e desencadearam incêndios avassaladores, até ao Grande Sismo de Kanto, em 1923, que terá provocado cerca de 140 mil mortos em Tóquio.
Leia também: Sismo no Peru faz seis mortos e deixa centenas de desalojados. Porque é que os danos foram tão elevados
O Japão introduziu regulamentos de construção mais rigorosos em 1980, cuja eficácia ficou demonstrada no sismo de Kobe, em 1995, quando praticamente todas as seis mil vítimas mortais pereceram em edifícios construídos antes da entrada em vigor das novas normas. Essa catástrofe impulsionou um esforço nacional mais amplo para reforçar edifícios antigos e melhorar os sistemas de resposta a emergências.
Ainda assim, mesmo com estes avanços, a tecnologia tem limites. O sismo e tsunami de Tohoku, em 2011, de magnitude 9,1, provocou cerca de 20 mil mortos e desencadeou o desastre nuclear de Fukushima, continuando a ser a catástrofe mais devastadora da história recente do Japão. Sismos de menor magnitude podem, ainda assim, revelar-se mortais, como aconteceu em 2024, quando um sismo de magnitude 7,1 matou mais de 700 pessoas na península de Noto.
Perante esta ameaça constante, o Japão tornou-se uma das nações mais bem preparadas do mundo. Os simulacros de sismo começam logo no infantário, os edifícios são obrigados a incluir tecnologia de absorção sísmica, como estruturas flexíveis e paredes amortecedoras de choques, e o Governo mantém sistemas extensos de aviso prévio e monitorização.
As autoridades têm também alertado para o risco de um megassismo na fossa de Nankai, um acontecimento raro, mas catastrófico que tende a repetir-se na região a cada um ou dois séculos. Porém, há ainda cientistas divididos quanto ao grau de precisão com que este tipo de risco pode ser previsto.
Leia também: Sismo de magnitude 6,2 atinge o nordeste da Indonésia. O que se sabe até ao momento
Por agora, os especialistas afirmam que a melhor estratégia do país continua a ser a mesma de sempre: reforçar continuamente as infraestruturas, colmatar as lacunas na preparação e manter a população pronta a reagir a qualquer momento, avança a CNN.