“O português permite coesão nacional e é a língua das elites” - Plataforma Media

“O português permite coesão nacional e é a língua das elites”

A professora e investigadora Lola Geraldes Xavier acaba de publicar em Macau “Literaturas africanas em Português: uma introdução”, obra que contextualiza, resume e lista a história e os nomes mais importantes das literaturas de cinco países unidos pela língua do antigo colonizador.

A língua portuguesa tem o condão de persistir, ou de se afirmar, por de algum modo se revelar consensual. Foi assim nas antigas colónias de Portugal em África durante os processos de independência (anos 1970), voltou a ser assim em Timor-Leste, depois da ocupação indonésia (2002). “Em países como Angola ou Moçambique, em que havia (há) tantas etnias e línguas, colocar-se-ia a questão: que língua oficial escolher? Apenas uma língua que não apresentasse conotações tribais poderia vingar num programa de construção de uma identidade nacional. Ironicamente essa língua seria a do (ex-) colonizador”, explica Lola Geraldes Xavier, autora do livro “Literaturas africanas em Português: uma introdução”, recentemente editado no território pelo Instituto Politécnico de Macau (IPM). Em entrevista ao Plataforma, a investigadora pós-doutorada pela Universidade de Coimbra e que há anos se dedica ao estudo das literaturas de língua portuguesa, fala daquilo que a atraiu nas paisagens literárias de Angola, Moçambique, Cabo Verde e companhia, bem como do modo como estes países, incluindo São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, têm vindo a transformar o idioma, tornando-o cada vez mais seu.

– Refere no livro que, quando se cruzou com as literaturas africanas em português, encontrou a voz que procurava. O que foi que a fascinou?

Lola Geraldes Xavier – O que me fascinou nestas literaturas foi o não se enquadrarem exatamente no cânone ocidental (o que para alguns especialistas as desvaloriza). Foi trazerem novas propostas temáticas e estéticas. É claro que têm influências de autores e obras ocidentais, mas conseguem adaptar essas influências às realidades locais.

– Sendo bastante diversas, consegue encontrar traços que as atravessem a todas?

L.G.X. – Sim, sem dúvida. São todas literaturas que nascem em contextos coloniais, que passam por um empenhamento político de luta pela liberdade/independência, que, consciente ou inconscientemente, contribuem para a formação de uma identidade nacional. É uma identidade que se constrói a partir da utopia inicial até ao desencanto das pós-independências. Atualmente, porém, são literaturas que trabalham já muitas temáticas universais, como o amor, a sensualidade, o erotismo, etc.

– Estas literaturas começam com uma grande carga ideológica e política; e hoje caminham já para um maior universalismo. É assim?

L.G.X. – Eu diria que começam como literaturas coloniais e aí poderíamos falar de literatura portuguesa colonial e ainda não de literatura angolana ou moçambicana, por exemplo. Passam para uma fase de afirmação de nacionalismo e, com o desencanto dos pós-independências, tornam-se cada vez mais universais. Deixam de olhar apenas para as questões internas para se focarem no Homem, enquanto ser global. Mas atenção: esta preocupação nunca deixou de existir, apenas não era a tendência predominante.

– Apesar de ter sido a língua do colonizador, o português tem, paradoxalmente um papel de construção de uma cultura e identidade nacionais. Como se explica este fenómeno de importância da língua?

L.G.X. – Em países como Angola ou Moçambique em que havia (há) tantas etnias e línguas, colocar-se-ia a questão: que língua oficial escolher? Apenas uma língua que não apresentasse conotações tribais poderia vingar num programa de construção de uma identidade nacional. Ironicamente essa língua seria a do (ex-)colonizador. A apropriação que se foi fazendo dessa língua, foi-lhe retirando a conotação imperialista. É claro que muitos cabo-verdianos, por exemplo, batem-se para que o crioulo seja essa língua oficial de identidade nacional – o caso de Cabo Verde é, porém, diferente do de Angola e de Moçambique. O facto, contudo, é que independentemente das idiossincrasias de cada um destes cinco países, o Português permite coesão nacional e é a língua das elites, logo, língua associada a estatuto social e cultural.

– Fala de “um Português que se africanizou”. Quais as principais transformações operadas na língua por estas cinco literaturas?

L.G.X. – O código primário da literatura é a língua. Ora a língua oficial destes cinco países é o Português (em particular a variante do Português europeu). Mas é um Português que sofreu, necessariamente influências das línguas locais. São influências que se centram sobretudo a nível do léxico (é preciso novas palavras para nomear novas realidades), da sintaxe (como a pronominalização, mais semelhante à da variante do Português do Brasil) e da morfologia (os empréstimos de outras línguas, a criação de novas palavras através do uso de prefixos, por exemplo). Não temos, ainda, todavia, um número de investigações linguísticas que permitam caracterizar e sobretudo dar estatuto a essas variantes africanas do Português.

– É a criatividade linguístico-literária com que o português é tratado, bem como a sua contaminação pelo léxico africano, que tornam estas literaturas especiais? 

L.G.X. – A criatividade literária, primeiramente, e a criatividade linguística e estética são determinantes, sim. Para isso contribuem as tradições e costumes africanos, a influência da oratura, do contador de histórias, da relação com o tempo, com o espaço, com a religião, ou seja, a relação com a vida.

– Acredita nas previsões que dizem que será em África que nos próximos tempos mais crescerá o número de falantes de Português?

L.G.X. – Quando comecei a olhar para as literaturas africanas, na década de 1990, as previsões (pelo menos de alguns) eram de que o século XXI seria o século da África. Menos de uma década depois, elegeu-se a Ásia como o continente do século XXI. Tenho estado sempre à espera de que chegue a altura da África – mas está demorado e vai continuar a demorar. Percebo essas previsões, teoricamente fazem sentido, mas dependem de múltiplos factores económicos, políticos e sociais, nem sempre calculáveis. Aguardemos!

– Sátira, sarcasmo, paródia e humor são notas dominantes nestas literaturas, de acordo com a sua análise. Porquê?

L.G.X. – Sátira, sarcasmo, paródia, humor e ironia. De facto, a ironia e outros processos discursivos afins, como a sátira, o sarcasmo, a paródia, o cómico, o humor, que, num livro publicado sobre a ironia nas literaturas de língua portuguesa, apelidei de processos parairónicos, atravessam a fase de desencanto das pós-independências nestes países africanos. São processos que se coadunam com as desilusões de quem tinha idealizado um país com progresso económico, social e político. O que resta ao poeta ou ao escritor impotente perante uma realidade que o ultrapassa? Escarniá-la. Até porque nem sempre se tem podido falar em plena liberdade de expressão em alguns destes países. A ironia adequa-se a estas literaturas, pois permite exprimir um julgamento crítico. Pode funcionar como um riso libertador, da desconstrução da realidade, a consciência trágica da imperfeição humana. Além disso, a ironia é um dos processos estilísticos muito apreciado pelo Pós-modernismo, período literário em que muitas destas obras africanas atuais em Português se podem enquadrar.

– Vinca também a importância do português para a possível internacionalização destas literaturas. Isso está a acontecer?

L.G.X. – A questão do Português para a internacionalização destas literaturas coloca-se em relação às línguas locais. Nestes países a publicação, distribuição e taxa de leitores é ainda reduzida. Qual o maior número de leitores destas literaturas? Portugueses e brasileiros. Por isso, e apesar de haver autores que escrevem, por exemplo, em crioulo de Cabo Verde ou da Guiné, se a obra não for traduzida para Português o número de leitores será diminuto e a possibilidade de receberem prémios em Língua Portuguesa, como o Prémio Camões, é reduzida. Por outro lado, o acesso a outros prémios internacionais, como o Prémio Literário Internacional de Dublin, que José Eduardo Agualusa recebeu em 2017, com o romance Teoria Geral do Esquecimento, só é possível se a obra estiver traduzida noutra língua internacional, no caso o inglês.

– Que autores são para si os mais representativos da atual literatura africana em língua portuguesa?

L.G.X. – A resposta a este género de pergunta é sempre arriscada: fica sempre algum nome por referir… Tentando abarcar prosa e poesia, falaria de Germano Almeida, Arménio Vieira, José Luiz Tavares e de José Luís Hopffer C. Almada, em Cabo Verde; de Abdulai Sila, Tony Tcheka e Odete Semedo, na Guiné-Bissau; de Albertino Bragança e Conceição Lima, em São Tomé e Príncipe; de Pepetela, Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Ondjaki, João Melo, Boaventura Cardoso, Manuel Rui e Paula Tavares, em Angola; de Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, Paulina Chiziane e Luís Carlos Patraquim, em Moçambique. Mas há muitos mais.

– “A literatura funciona como repositório da História”. Continua a ser assim nestes países?

L.G.X. – Sim. Basta pensar nos últimos livros de Ungulani Ba Ka Khosa, que esteve recentemente em Macau, na Rota das Letras, na generalidade dos livros de Pepetela, ou mesmo nos de José Eduardo Agualusa. Neste último caso, o olhar é universal, mas, geralmente, a partir de temáticas (históricas) nacionais angolanas. 

– Que importância tem a publicação deste livro em Macau, um território que nunca foi exatamente uma colónia e onde o português nunca conseguiu realmente impor-se enquanto língua dominante?

L.G.X. – Tudo depende da importância que se quiser dar às literaturas africanas na formação de estudantes (ou curiosos) de Português. No IPM, por exemplo, há disciplinas de Literaturas de países de língua portuguesa, na licenciatura em Tradução e Interpretação Chinês-Português/Português-Chinês e de Literaturas africanas, na nova licenciatura em Português. É um passo importante: estão a valorizar-se essas literaturas. Se queremos desenvolver relações comerciais e sociais com o outro, temos de conhecer a sua cultura. A literatura é um meio privilegiado para isso. 

Hélder Beja  27.04.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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