Parentes pobres

por Arsenio Reis

Quando a manta é curta, há que escolher entre os ombros ou os pés, porque algum fica a descoberto. Assim é com o Orçamento do Estado, cada ano. O de 2018 está praticamente fechado. E, sabe-se agora, o preço que o Governo PS está disposto a pagar, para obter os votos favoráveis do PCP, Bloco de Esquerda e Verdes ronda os 1200 milhões de euros. Por junto, somam as parcelas para a atualização extraordinária de pensões, o descongelamento mais rápido das carreiras no Estado, os novos escalões de IRS e a integração de precários, em especial de professores. Mas é preciso assinalar que 1200 milhões é soma que ultrapassa os valores globais destinados à Cultura e à Ciência. E cá temos nós o problema da manta curta.

Em matéria de gastos públicos na cultura, por exemplo, estamos vergonhosamente nos mínimos (0,2 por cento), somos o penúltimo país da Europa em percentagem do PIB, quando a média europeia anda por um por cento. Hipocrisia à parte, na hora de decidir, à esquerda e à direita, o discurso parlamentar é de insatisfação. Até do próprio primeiro-ministro, que “gostaria de ir mais longe”. Acontece que, contas feitas, se o orçamento da Cultura continuar a crescer ao ritmo de 2017 para 2018, só daqui a 70 anos é possível alcançar aquele patamar médio…

Já quanto à Ciência, nem de propósito, o meu caderno de cábulas lembra uma anedota em forma de diálogo, assim: “Senhor Faraday, e para que serve tudo isso?”, perguntou o primeiro-ministro britânico, William Gladstone. “Não sei, senhor”, respondeu Faraday. “Mas um dia v. ex.a vai querer cobrar impostos por isso”.

Michael Faraday, sem formação académica, mas considerado o melhor experimentalista da história, e o grande físico e matemático James Maxwell abriram a Europa à Ciência ao descobrir, na década de 1880, que eletricidade e magnetismo não são duas forças, mas antes duas formas de encarar a mesma força, a força eletromagnética. E que a luz é uma das suas manifestações.

Foi essa perceção luminosa e fundamental da física básica que incendiou a revolução elétrica que transformou o mundo nas décadas seguintes. As quatro equações simples e elegantes que Maxwell escreveu num pedaço de papel são a base dos grandes conglomerados industriais da primeira metade do século XX. Não consta que o primeiro-ministro Gladstone tenha chegado a cobrar impostos por isso. Mas sabemos dos que lhe sucederam – lá como cá. Já quanto ao tamanho da manta e ao nosso orçamento do Estado, é bom que saibamos distinguir entre pobres e pobres de espírito. O problema mesmo é se aceitamos acumular. 

Afonso Camões*

* Diretor do JN

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