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Travão a fundo na irracionalidade

O comunicado conjunto dos reguladores chineses, denunciando a “irracionalidade” dos investimentos chineses, é um fenómeno político inédito. Grandes conglomerados como a Fosun e o HNG Group, com pesados investimentos, por exemplo, em Portugal, estão sob apertada vigilância, em consequência de investimentos descomunais que, em alguns casos, são gigantescos flops. A internacionalização da economia chinesa corre o risco do mesmo efeito perverso que teve a má gestão do crédito e a sustentação do crescimento interno com obras faraónicas lançadas pelos governos regionais, responsáveis por uma dívida escondida que já não preocupa só a China, mas o mundo inteiro. Essa nova consciência muda por completo a dinâmica de internacionalização do capital chinês.

No primeiro semestre deste ano, o investimento chinês no estrangeiro caiu 44 por cento, segundo o Ministério do Comércio. Naturalmente, também o mundo lusófono sofre esta nova realidade, perspetivando-se um horizonte menos abundante do que aquele com que sonhavam o Brasil e os países africanos de língua portuguesa, que viram em Pequim uma espécie de messias da nova economia, substituindo os Estados Unidos e a Europa.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. A liquidez chinesa não desapareceu. E apesar do fomento do consumo interno, essencial na estratégia do primeiro-ministro, Li Keqiang, a convicção de que a China deve investir na sua influência global continua nos planos do partido e do Governo. Ou não fariam sentido as novas rotas da seda e os planos de financiamento e construção de infraestruturas a nível global. A questão que se põe é diferente: o mundo está difícil e ter dinheiro não quer dizer que se possa esbanjá-lo. Pior: investimentos irracionais revelam uma de duas coisas: incompetência ou má fé. Nem uma nem outra podem ser perpetuadas.

O envolvimento das empresas, estatais e privadas, na internacionalização da economia chinesa, justifica-se precisamente porque é suposto elas serem racionais nos investimentos, que devem ser estratégicos, sustentáveis e potencialmente rentáveis. Atirar dinheiro ao ar, fazer a festa e depois falir não serve ninguém. Nem a China, nem as empresas onde esse capital foi injetado, nem sequer os países que acolheram esse investimento.

O dinheiro chinês não acabou. Mas quem o quiser tem de apresentar projetos sustentáveis e racionais. A bem de todos, a oportunidade tem de ser qualificada.  

Paulo Rego

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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