O comércio EUA-China no quadro da nova incerteza americana

por Arsenio Reis

Depois da cimeira de dois dias em Mar-a-Lago, os Estados Unidos e a China anunciaram um plano de 100 dias para aligeirar a tensão nas relações comerciais e  para promover a cooperação entre os dois países.

O que irá acontecer ao diálogo comercial EUA-China? Durante as últimas três décadas, a postura comercial dos Estados Unidos tem mudado de uma atitude outrora multilateral e inclusiva para uma cada vez mais bilateral e assertiva. Estas posições políticas podem ser condensadas em três cenários.

No cenário multilateral, Washington procura acordos comerciais multilaterais que incluem a China (expansão do Acordo sobre as Tecnologias da Informação na Organização Mundial do Comércio, já concluído; o Acordo sobre Bens Ambientais com enfoque nas tarifas; as negociações da China para aderir ao acordo de aquisições da OMC; os esforços dos Estados Unidos por um Acordo de Comércio de Serviços). Este cenário é mais típico dos governos norte-americanos nos primeiros tempos das reformas e políticas de abertura da China, quando o poder económico da China continental era ainda negligenciável.

No cenário bilateral, os Estados Unidos intensificam negociações bilaterais com a China para liberalizar o comércio através de diálogos bilaterais de alto nível, como o Diálogo Estratégico e Económico EUA-China e a Comissão Comercial Conjunta EUA-China (JCCT, na sigla em inglês), tentando ao mesmo tempo concluir o Tratado Bilateral de Investimento (BIT, na sigla em inglês).

Este é talvez o cenário que o ex-secretário do Tesouro Henry Paulson, antigo CEO da Goldman Sachs, promoveu durante o segundo mandato do presidente George W. Bush. O cenário assentava na ideia de que os interesses comerciais trazem também benefícios políticos e estratégicos.

No cenário assertivo, os Estados Unidos tomam uma posição mais agressiva em relação à China (casos de resolução de litígios contra a China na OMC; ameaças de sanções comerciais; um maior uso da regulação comercial, incluindo medidas compensatórias e antidumping). De uma forma ou de outra, a Administração de Obama adotou este cenário ao tomar partido do recurso à OMC e ao sugerir sanções comerciais. Por sua vez, o Governo de Trump também ameaçou inicialmente explorar agressivamente medidas de regulação comercial contra a China.

Em suma, existe mais continuidade entre Obama e Trump do que os democratas gostariam de reconhecer.

Na sua campanha de 2016, o Presidente Trump prometeu renegociar alguns acordos-chave de livre comércio, incluindo o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês). Após a tomada de posse, o Presidente cumpriu o prometido e fez uso da ordem executiva para abandonar a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). As renegociações do NAFTA estão agendadas para breve.

Uma vez que as políticas comerciais dependem principalmente da ação executiva, a Administração de Trump poderá optar por renegociar os acordos em vez de os rejeitar, o que reduziria os riscos negativos. Estando o início das negociações programado para depois de meados de agosto, seguir-se-ão a breve trecho outros acordos comerciais bilaterais que estarão brevemente sobre a mesa. Uma vez que estas negociações irão provavelmente prolongar-se durante o outono, grandes fricções comerciais com o potencial de prejudicar as perspetivas globais de crescimento poderão ser adiadas até 2018.

E o plano de 100 dias concluído durante o encontro Trump-Xi em Mar-a-Lago? Este esforço destina-se a aligeirar a tensão das relações comerciais e a promover a cooperação entre os dois países. Contudo, se o plano não conseguir proporcionar avanços significativos depois do verão, os defensores de políticas comerciais agressivas próximos de Trump poderão ressurgir e a retórica sobre o défice poderá voltar a escalar.

Uma vez que o Governo de Trump tem de lutar pela sua sobrevivência política, mesmo querendo implementar reformas ousadas, procura vitórias a curto prazo para promover a confiança.

Se o plano de 100 dias puder gerar resultados significativos, este possui o potencial de elevar os laços bilaterais a um novo nível. 

*Fundador do Difference Group, tendo trabalhado como diretor de investigação no Índia, China and America Institute (EUA) e como investigador convidado no Instituto de Estudos Internacionais de Xangai (China) e no Centro da UE (Singapura).

Dan Steinbock* ‭ ‬

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