É candidata a deputada pela terceira vez, mas acredita que desta vez está mais bem preparada. Depois de ter concorrido nas últimas duas eleições legislativas, a académica e líder do movimento Energia Cívica, Agnes Lam, irá tentar novamente a sua sorte no sufrágio por via direta. Em entrevista ao PLATAFORMA, afirma que irá fazer incidir a sua batalha em áreas como a habitação e a saúde, por serem problemas para a generalidade da população. Diz ainda que o sufrágio universal continua a fazer parte do seu programa, mas que o chumbo a novas reformas políticas em Hong Kong faz com que este tenha agora um destaque menor.
– É a terceira vez que concorre às legislativas. O que vai ser diferente?
Agnes Lam – Estou mais confiante, mais bem preparada e percebo melhor o papel de um deputado e o que podemos fazer se ganharmos.
– Em 2009, teve resultados acima das expectativas, enquanto, da segunda vez, os resultados não foram tão bons. Que estratégia irá adotar para estas eleições?
A.L. – Da primeira vez que concorremos, começámos do zero. Não tínhamos experiência e tínhamos pessoas — que já ajudaram outros noutras eleições — a apoiar-nos. Candidatei-me com base no que li nos livros e nos jornais. Correu bastante bem — a nossa imagem, os slogans e os cartazes eram bons. Todo o material promocional foi bem recebido. Mas parece-me que, na altura, a nossa agenda política não era clara. E não escrevemos de maneira a comunicar com os eleitores. Fui capaz de comunicar com os adversários, mas não fui suficientemente bem sucedida no alcance a um público maior. Não reuni os votos suficientes. Da segunda vez, entendi que havia esse problema e quis mudá-lo, mas, como decidi que iria candidatar-me já tarde, não tive tempo. Desta vez, tomei a decisão no ano passado e comecei logo a falar com pessoas diferentes, a definir um programa e a decidir a estratégia. A equipa está muito mais bem preparada e percebemos tudo melhor. Sinto que tenho mais experiência.
– Nestas eleições, há um maior número de listas do que nos anos anteriores. Porquê?
A.L. – Significa que há mais pessoas a acreditarem que é preciso haver mudança.
– Nas legislativas passadas, centrou a sua campanha no sufrágio universal bem como em outros pontos como a cultura, a violência doméstica e a proteção dos animais. Quais serão os temas fortes deste ano?
A.L. – Mais ou menos os mesmos assuntos, mas agora prestamos mais atenção à habitação — um grande problema para todos — e ao sistema de saúde. Não sou médica, mas eu e a minha lista acreditamos que podemos analisar os erros sistemáticos e tentar avançar com alguma solução. Desta vez, vou abordar problemas mais ligados às pessoas comuns. Da primeira vez que concorremos, apostámos no sufrágio universal e, nesse ano, achávamos que se tivéssemos mais pessoas a defendê-lo, poderia ser implementado rapidamente. Pensámos que, se conseguíssemos que a sociedade acreditasse, seria uma realidade a breve trecho. Aliás, apostámos em várias coisas, como a proteção dos animais — ninguém pensou nisso antes —, o sufrágio universal, os direitos das mulheres, as indústrias culturais, a defesa do património da UNESCO. Na altura, as pessoas criticaram-nos — estávamos demasiado virados para a classe média e não compreendíamos as pessoas comuns. Mas todos esses temas acabaram por ser explorados mais tarde por outros deputados.
– Nestas eleições, a vossa campanha vai centrar-se na habitação?
A.L. – Sim. Nas legislativas passadas começámos a falar sobre habitação. Mas, nessa altura, não apresentámos nenhuma proposta, porque não tínhamos dados suficientes para perceber o problema. Não estávamos preparados. Agora percebo melhor a situação e parece-me que podemos apresentar novas soluções.
– Desta vez, a sua lista não terá qualquer candidato de língua portuguesa?
A.L. – Já temos a lista mais ou menos confirmada. E não há portugueses. O Rui Leão [arquiteto candidato em eleições anteriores] está a ajudar, mas não é candidato.
– Quem são os restantes elementos da equipa?
A.L. – Temos um médico. No ano passado, com a lei do erro médico, comecei a falar com várias pessoas da área e a discutir os problemas da saúde.
– Quais são os principais problemas no sector da saúde?
A.L. – É preciso criar um verdadeiro sistema de saúde, de forma a que possamos ir ao hospital público e ao privado e ter um tratamento de confiança. Neste momento, em Macau, é sempre preciso haver tratamentos fora do território. Como se pode ter essa opção se não se é suficientemente rico? Deveria haver um sistema melhor de cuidados de saúde. Não posso, por enquanto, dar mais detalhes [em relação à campanha].
– No que toca à habitação, quais são as questões que pretende atacar?
A.L. – Os residentes não têm dinheiro para comprar uma casa. E, como não o podem fazer, acabam por ficar a morar com as famílias num espaço pequeno. Não se sentem bem. Começam a duvidar de que possam ter a sua própria vida aqui. Há muitas pessoas que são capazes de usar os seus imóveis para gerar rendimento. Isso é injusto. Precisamos de ter algum tipo de controlo. Nas últimas eleições, fomos a única lista a propor algum tipo de controlo sobre as rendas. Agora o Governo está a falar disso. O problema não passa apenas por comprar casa em Macau, mas por arrendar também. Macau tornou-se incomportável e isso irá afetar a nossa economia. Se todos os expatriados se forem embora, deixamos de ter diversidade na sociedade. Precisamos de continuar a receber pessoas de diferentes sítios. Além disso, as rendas subiram tanto e tão rapidamente que isso tem impacto nos pequenos negócios locais. Não conseguem sobreviver. Isso afeta o nosso sentimento de pertença.
– O sufrágio universal foi uma das suas grandes batalhas nas últimas legislativas. Dado o desenlace na região vizinha, irá continuar a ser um ponto fulcral na campanha para estas eleições?
A.L. – Continuamos a levantar a questão, mas, desta vez, vamos ser um pouco mais moderados. De início, pensámos que em 2019 podíamos alcançá-lo, porque Hong Kong iria tê-lo em 2017. Agora percebemos que, se Hong Kong não o tem agora [2017], não podemos seguir os passos de Hong Kong. Temos de criar o nosso próprio caminho.
– É possível que venhamos a ter sufrágio universal?
A.L. – Precisamos de continuar a dizer que queremos o sufrágio [universal]. Se, por acharmos improvável, não falarmos nele, nunca o teremos. É pouco realista pedir eleições diretas [do Chefe do Executivo] para 2019. Não vou fazer isso. Mas estou a pensar que, mesmo que em 2019 não seja possível, talvez possa acontecer em 2024.
– Considerando o exemplo do território vizinho, diria que as pessoas de Macau perderam a esperança de vir a ter o sufrágio universal?
A.L. – Parece-me que metade da população perdeu. Fiquei muito desiludida por em Hong Kong terem acabado por negá-lo. A política tem que ver com negociação e é preciso fazer compromissos.
– A sua lista, no passado, ficou também conhecida por se focar muito na cultura. Será uma preocupação também desta vez?
A.L. – Tivemos novas ideias e queremos promover coisas novas.
– Quem faz já parte da sua lista?
A.L. – Queremos revelar os nomes de maneira diferente.
– Mais próximo da data das eleições?
A.L. – Sim.
– Nas eleições passadas, procurou o apoio da classe média. E desta vez, quem será o alvo?
A.L. – Continua a ser a classe média. As classes média e média-baixa estão a enfrentar os mesmos problemas. A única diferença é que quando a classe média está infeliz tem mais dinheiro para viajar. Mas os problemas são iguais. A classe média-baixa queixa-se de não poder andar de autocarro. A classe média queixa-se de não ter lugar para estacionar o carro. Habitação, saúde, transporte são problemas muito básicos.
– Irá continuar a apostar nos jovens?
A.L. – De início, apostámos muito nos jovens, mas, ainda que lhes continuemos a dar importância, queremos alargar o alcance.
– A população de Macau está mais desperta para a política?
A.L. – Sim, mas, ao mesmo tempo, houve um retrocesso, por tudo o que sucedeu em Hong Kong. É muito infeliz que algumas pessoas tenham repensado a sua maneira de se envolver na política. Algumas pessoas têm medo e não querem confronto, sentem-se confortáveis. Isto vai afetar a nossa campanha. Precisamos de perceber o que está por trás deste retrocesso e pensar nalguma coisa.
– A população está menos confiante?
A.L. – Sim, está menos confiante na política e está mais fria.
– Ao mesmo tempo há mais listas a concorrer…
A.L. – Sim. Talvez isso ajude [a mudar o sentimento da população].
– Disse que a existência de mais listas significa que as pessoas estão com vontade de mudança. Que mudanças são necessárias?
A.L. – O problema é estrutural. Temos muito dinheiro, mas por que é que não conseguimos resolver os problemas? Alguma coisa está errada — é o sistema. Se olharmos para o PIB [Produto Interno Bruto] per capita, podemos investir na educação e na saúde. Mas, comparando com o resto do mundo, por que é que somos fracos na habitação e nos transportes? Não é equilibrado.
– E a Assembleia Legislativa devia ser composta por mais deputados independentes de interesses?
A.L. – Mais independentes, mais profissionais, com mais pessoas que possam trabalhar pelos eleitores e que percebam os problemas sistemáticos.
Luciana Leitão