As Olimpíadas do Rio de Janeiro já passaram o seu décimo dia, e esta edição deu já origem a muitos “recordes”. Houve ocasiões que nos deixaram entusiasmados e empolgados, mas também algumas desilusões e preocupações.
As Olimpíadas do Rio realizam-se sob muitas condições adversas, incluindo um fraco crescimento económico no Brasil, uma situação política pouco risonha (a presidente Dilma Rousseff foi alvo de um processo de impeachment, com o Vice-presidente Michel Temer a substituí-la), juntando-se ainda o vírus Zika que assola a América do Sul sem ter sido ainda controlado e a ameaça terrorista a assombrar as olimpíadas.
Vejamos primeiro as medidas adotadas pelas autoridades olímpicas no Brasil para prevenir os ataques terroristas durante as olimpíadas. Ao todo foram enviados 80.000 militares e agentes policiais responsáveis pelas operações de segurança. Durante este período nenhum deles terá folga, estando presentes por toda a cidade para prevenir qualquer ataque terrorista. O número de pessoas mobilizadas é mais do dobro das forças de segurança usadas pelo Reino Unido nas Olimpíadas de Londres.
Desde a abertura da Vila Olímpica no dia 2 de julho, as autoridades brasileiras distribuíram gratuitamente 450.000 preservativos pelos 10.500 atletas hospedados, numa média de quase 43 preservativos por pessoa.
Oferecer preservativos aos atletas é algo que já tinha acontecido nas edições anteriores, em quantidades variáveis. A primeira vez foi nas Olimpíadas de Seoul em 1988, na altura um preservativo por pessoa, enquanto hoje temos quase três preservativos por pessoa para cada dia.
Qual a razão para oferecer aos atletas grandes quantidades de preservativos? O Comité Olímpico Brasileiro referiu o objetivo de proteger contra o vírus da SIDA, e o Comité Olímpico Internacional acrescentou que tal medida ajuda a consciencializar os atletas relativamente à prevenção do vírus. Na verdade, isto era já uma prática comum em grandes eventos competitivos como o Campeonato Mundial de Futebol ou os Jogos Asiáticos, tendo como objetivo prevenir o vírus da SIDA. Porém, uma outra razão é que o uso do preservativo também protege contra o vírus Zika.
Na atmosfera política, a presidente Dilma Rousseff, forte defensora da organização dos Jogos Olímpicos por parte do Brasil, foi suspensa pelo Senado num processo de impeachment. No dia 10 deste mês, o Senado decidiu mais uma vez manter a suspensão de Dilma. Caso isso se repita na terceira sessão do julgamento no final deste mês, Dilma será oficialmente destituída.
O governo provisório de Michel Temer, que ocupa interinamente o cargo de presidente, implementou já várias medidas de desenvolvimento económico. Contudo, devido à sua presença ainda curta no governo, é difícil determinar atualmente a eficácia de tais medidas.
Estes dez dias de olimpíadas no Rio tiveram alguns efeitos animadores para a indústria do turismo, tendo o número de turistas aumentado. Contudo, uma vez que as condições de segurança pública do Rio ainda não tiveram grandes melhorias neste período, ocorrem diariamente incidentes de roubos e assaltos a atletas, membros de delegações ou turistas. Felizmente, nenhum deles foi fatal, mas estas olimpíadas já receberam o apelido de “Aventura no Rio ”.
Os locais preferidos dos turistas durante as olimpíadas são as favelas, e em segundo lugar as praias do Rio de Janeiro. Nas visitas às praias, os turistas são atraídos pelos prazeres do mar e do sol, enquanto nas favelas as motivações são outras. Ao verem os habitantes emaciados e de roupa esfarrapada, lembrar-se-ão do quão afortunados são? Quando rodeados de crianças descalças e de tronco nu, com os narizes a pingar enquanto apanham os rebuçados e moedas atiradas por estes estrangeiros, os turistas terão em mente o afeto, a pena, a caridade? Porque é que os turistas ocidentais não se interessam por muitas das antigas favelas? Porque estes locais já se desenvolveram, transformando-se em zonas comerciais ou repletas de grandes edifícios. Há cerca de 40 anos atrás, este era um cenário comum na China continental. É claro que ações deste tipo na China continental de hoje não causariam o mesmo espetáculo, o que é também uma causa de insatisfação para os ocidentais em relação à China. Eles só querem ver cenários de favela como no Rio de Janeiro ou a China de há quarenta anos atrás.
Ao assistir, antes das olimpíadas começarem, à decisão do Comité Olímpico Internacional relativamente à Rússia por motivos de doping, assim como a interdição total de atletas russos nas paraolimpíadas, não consigo deixar de pensar que o lema de não deixar a política interferir no espírito olímpico desportivo já caiu no esquecimento.
DAVID Chan