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Calma: o Pokémon Go é apenas um jogo

tentação para extrapolarmos leituras e lições perante fenómenos universais é natural e compreensível. 

Confesso, por isso, que me dá vontade de extrapolar com grande fervor quando vejo crianças, adolescentes e até cidadãos adultos a enfiar os olhos no ecrã de um telemóvel e percorrer a pé as ruas das cidades à procura de uns monstrinhos coloridos virtuais. Mas, na verdade, o fenómeno do jogo Pokémon Go, que agora atinge Portugal como um furacão global na sua máxima força, não é mais do que uma modinha frívola e passageira, como tantas outras que fazem as delícias da tão mediática cultura do efémero. E é, antes e acima de tudo, um negócio absolutamente milionário para a bem-aventurada Nintendo, que conseguiu a proeza de transformar uma série de desenhos animados dos anos 1990 num vício planetário do século XXI. Resultado: as ações da tecnológica valorizaram mais do que pãezinhos quentes numa tarde fria de inverno.

Os extrapoladores profissionais têm desenvolvido, nos últimos dias, verdadeiros tratados sociológicos sobre os perigos para a Humanidade destes movimentos de “manada tecnológica” (a expressão é minha), traçando epitáfios apressados à geração de adolescentes e adultos imaturos que parecem não discernir o mundo real do mundo da realidade aumentada. Lamento desapontar-vos, mas a pokémania, meus caros, é apenas uma mania. Bastam cinco minutos de jogo para perceber o quão estúpido é, mas o quão viciante consegue ser. Não é uma aplicação para atrasos mentais, é, sim, uma aplicação bem desenvolvida, de envolvimento, que cria, por isso, dependência. Que vicia: como o póquer, as apostas de cavalos ou a raspadinha. Com a vantagem de, ao contrário destes, ajudar a combater a obesidade e o sedentarismo, uma vez que obriga os jogadores a sair de casa.

O Pokémon Go extravasa as fronteiras do razoável quando entra em campo a indomável estupidez humana. Conduzir enquanto se procura um monstro é estúpido; invadir propriedade privada em busca de um monstro é estúpido; cair de um penhasco à procura de um animalzito que não existe é estúpido; despedir-se do emprego para apanhar pokémons é ainda mais estúpido. Mas pensar que houve um jogo que, em poucas semanas, conseguiu manter largas dezenas de milhões de pessoas no Mundo longe dos sofás, longe de coisas verdadeiramente estúpidas e envolvidas numa caçada animada na rua, até acaba por nem ser um dano colateral do desenvolvimento assim tão nocivo. Não vejamos tragédias onde há apenas divertimento. Lembram-se do Tamagotchi? Sobrevivemos, não? 

Pedro Ivo Carvalho

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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