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Nova relação com África apoiada na demografia

O continente africano precisa a cada ano de criar 20 milhões de novos postos de trabalho para ocupar a sua jovem população. A China pode colher vantagens num novo modelo de relação que prevê a transferência de indústrias.

A China e os países africanos continuam comprometidos com promessas de investimento reforçadas desde Dezembro do ano passado, aquando da reunião do  fórum bilateral China-África na África do Sul. Mas o novo contexto de queda de importações por parte da China e descida dos preços das matérias-primas faz antever um quadro de relações futuras transformadas que, ainda assim, poderão sustentar e promover as economias do continente.

Ao modelo assente na cooperação comercial poderá suceder um de efetivo investimento, com a relocalização de parte da produção chinesa para países africanos, defende David Dollar, antigo enviado do departamento do Tesouro dos Estados Unidos a Pequim e ex-quadro do Banco Mundial, num longo artigo de análise ao envolvimento chinês em África publicado pelo Centro da China John L. Thornton do think-tank Brookings Institution.

“Dos Recursos Naturais aos Recursos Humanos” é o subtítulo do estudo que procura assentar as necessidades da China e as dos países africanos nos pratos de uma balança comercial cada vez mais desequilibrada após uma década de grande crescimento acelerado nos volumes de trocas bilaterais e preços dos bens importados pela China – sobretudo, metais e energia.

Na ano passado, as importações chinesas a África caíram 40 por cento para um valor total de 67 mil milhões de dólares norte-americanos. As exportações para os países do continente mantiveram o ritmo, fixando-se num volume de 102 mil milhões de dólares norte-americanos. O prolongar de um ciclo de preços baixos de matérias-primas nos mercados internacionais, e a retração da dependência chinesa dos recursos naturais do exterior num processo de abrandamento e de transformação do modelo económico, fazem crer que o comércio deixará de ser tão fundamental nesta relação – que as lideranças africanas procuram que se centre agora no investimento.

Como fazê-lo? David Dollar sugere que a resposta está na demografia, da qual os países africanos poderão tirar dividendos apreciáveis à semelhança do que a China fez no período de explosão da sua manufactura. A ideia tem cativado economistas e intelectuais africanos, e o economista norte-americano corrobora a visão.

“África precisa de criar mais postos de trabalho que acompanhem o seu rápido crescimento populacional. Os preços elevados das matérias-primas e o boom de exportação apoiaram as economias africanas durante a última década, mas é provável que o grande ciclo de matérias-primas esteja terminado no futuro previsível. Por comparação com o passado, é mais importante para as economias africanas desenvolver serviços e indústrias transacionáveis, e é também mais viável”, entende.

Com cerca de metade da sua população com idades abaixo dos 20 anos, os países africanos assegurarão mercados de trabalho competitivos, ao mesmo tempo que as taxas cambiais se mostram favoráveis ao investimento externo, defende Dollar. Não será realista esperar que a indústria chinesa acorra em massa a relocalizar-se, mas na dimensão reduzida em que o faça já estará a contribuir para a sustentação das economias africanas, com vantagens para ambos os lados, entende o economista.

Mas para que o novo modelo de relacionamento dê certo serão necessárias algumas mudanças. David Dollar, um economista com estudos sobre o impacto do investimento no desenvolvimento dos países e que ao longo do último ano tem vindo a centrar atenções no papel da China em África, rejeita a visão negativa que alguns governos e públicos do Ocidente têm sobre esta relação. Porém, admite desequilíbrios: um número desproporcional de trabalhadores chineses envolvidos no continente (estimados em um milhão neste estudo) e um afunilamento das oportunidades de desenvolvimento dos sectores de construção dos países africanos perante as condições impostas por Pequim para apoio a projetos de infraestruturas. 

Em primeiro lugar, defende Dollar, os dados desta relação devem ser claros. Os países africanos devem garantir informação pública regular sobre os vistos de trabalho atribuídos a cidadãos chineses e também sobre os respetivos níveis de endividamento ao exterior, incluindo garantias públicas, resultantes do crédito à construção de infraestruturas. 

O economista admite que, tal como a China procedeu no desenvolvimento das suas indústrias, os países africanos devem impor maior controlo sobre os influxos migratórios de forma a garantir a ocupação de mão-de-obra própria, maximizando assim o impacto do investimento no continente. 

Os custos mais baixos da mão-de-obra e o câmbio favorável também não chegarão para atrair o investimento chinês, onde o sector privado e as pequenas e médias empresas têm vindo a ter já um peso maior. São necessárias boas infraestruturas na energia, transportes e telecomunicações – sectores onde a China tem, aliás, servido de apoio crucial – e também administrações alfandegárias mais eficazes, um controlo razoável da corrupção, e maior segurança na aplicação do direito comercial e do direito de propriedade. 

A Pequim, Dollar recomenda a melhoria das perspetivas de retorno sobre os investimentos realizados – sobretudo, no sector mineiro, onde a iniciativa das empresas estatais tem mostrado maus resultados – e a cooperação com os governos dos países-destino dos investimentos para que haja uma maior aposta na formação da mão-de-obra local. Por fim, o economista sugere que as indústrias chinesas analisem as perspetivas de longo prazo na eventual transferência de indústrias para África face ao potencial demográfico do continente, ainda que os mercados de trabalho de países do sudeste asiático como Vietname ou Camboja se apresentem como alternativas imediatas. 

Os governos ocidentais são também chamados a empenharem-se na elevação dos níveis de governação e Estado de Direito nos países africanos, procurando ter uma visão mais equilibrada e objectiva da ação chinesa em África. “Não há uma receita simples para melhorar a governação. Mas que o público ocidental critique de braços cruzados as diferentes colaborações sino-africanas não ajuda e, tipicamente, é algo que não é apreciado pelo público africano”, aconselha Dollar.

Maria Caetano 

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