Henrique Raposo - O SEXO DOS GOLOS - Plataforma Media

Henrique Raposo – O SEXO DOS GOLOS

Comecemos pelo óbvio: a FIFA é uma organização pudica. Por vezes, até parece um convento de carmelitas. Qual freira escandalizada, a FIFA proíbe que os jogadores dispam as camisolas no calor dos festejos. Jogador de tronco nu e aos pulos é sinónimo de cartão amarelo. Não há regra mais estúpida no cardápio da FIFA. Como é que a peitaça depilada pode ficar no mesmo saco da entrada a pés juntos sobre a rótula alheia? Ora, esta assexualidade bem comportada seria sempre ridícula, mas hoje em dia é mais do que ridícula, é estapafúrdia, está no campo do humor involuntário. Nós vemos corpos nus em todo o lado e a toda a hora, nos sítios dos jornais, nas séries de TV, nos filmes, nos cartazes publicitários da rua e dos autocarros. Com um mero clique no rato, qualquer garoto pode ver as travessuras do Marquês de Sade, e as donas de casa desesperadas sabem que têm Gomorra à distância de dois links. Aliás, uma pessoa pode ver um jogo do Mundial na TV enquanto vê porno no ipad ou iphone. Neste tempo hipersexualizado, a castidade da FIFA é um óvni incompreensível.

Mas o dado mais curioso nem sequer está nesta regra castradora da FIFA. O grande mistério está, isso sim, na forma como muitos selecionadores continuam a seguir um mito da Antiguidade. Os gregos acreditavam que o sexo antes dos Jogos Olímpicos estragava a concentração e reduzia os níveis de agressividade dos atletas. Mais de 2000 anos depois, os selecionadores ainda seguem este mantra sem qualquer validação científica. Qual Madre Superior que coloca cintos de castidade nas noviças, o selecionador mexicano já disse que os seus jogadores não poderão tocar na chicha alheia durante a concentração do Mundial do Brasil. “Vamos jogar um Mundial, não dar uma festa”, afirmou Miguel Herrera. O treinador da Bósnia, Safet Sucic, já fez saber que vai impor uma “disciplina militar” e, ao invés de Herrera, não se deu ao trabalho de recorrer à linguagem metafórica: “Os jogadores podem masturbar-se quando quiserem.” Um psiquiatra do Gana, Dr. Gordon Donnir, recomendou abstinência à seleção ganesa porque, diz ele, o Mundial é uma guerra. “Ninguém leva a sua parceira para a guerra, pois não?” Com uma tese tão ou mais espiritual, o ex-selecionador nigeriano Christian Chukwu, já aconselhou o atual responsável, Stephen Keshi, a impor a abstinência aos 23 jogadores. “Quer como treinador quer como jogador, fiz sempre questão de me manter afastado de mulheres durante os torneios, porque o sexo invoca muitas coisas espirituais”, diz Chukwu. Espirituais? Como num vudu? Na seleção chilena, Jorge Sampaoli também não permitirá que as namoradas e mulheres subam aos quartos; jogadores e parceiras só poderão confraternizar no salão do hotel, como garotos imberbes. Ainda mais patética é a solução de Cesare Prandelli. As namoradas e mulheres dos jogadores italianos poderão ficar no hotel, sim senhora, mas numa ala completamente diferente. Os jogadores dormirão sozinhos em quartos individuais e não poderão pensar em escapadinhas noturnas porque os corredores do hotel estarão vigiados por seguranças. Ou seja, Prandelli tratará os seus jogadores da mesma forma que um Ayatollah trata uma filha. Mas, verdade seja dita, Prandelli está apenas a repetir a tática de Fabio Capello, que colocou câmaras escondidas no hotel da equipa inglesa durante a concentração na África do Sul (2010). A rede de câmaras foi a forma que Capello encontrou para manter as temíveis WAG [“wifes and girlfriends”, mulheres e namoradas] fora do seu plano de trabalho.

Mas para quê tanto esforço? Será que estes treinadores acham mesmo que a abstinência é benéfica para o desempenho dos jogadores? É que isso é mais ou menos como desafiar a lei da gravidade, ou seja, é o mesmo que transformar um tarado na flor da idade num monge beneditino. Neste sentido, Didier Deschamps está quase sozinho no realismo: liberou por completo o sexo na concentração francesa. Na conferência de imprensa, um jornalista maldoso afirmou que existe um bordel apenas a 500 metros do hotel da seleção francesa. Deschamps fez questão de responder com o seguinte: se os jornalistas relatarem as – hipotéticas – idas dos jogadores ao bordel, ele próprio fará relatórios das idas dos jornalistas ao mesmíssimo estabelecimento. Ora aqui está um treinador que sabe proteger o balneário. Ora aqui está um treinador que já percebeu que a abstinência sexual não melhora em nada a atuação dos jogadores. Como tem dito Carlos Valderrama, o histórico colombiano (que participou nos Mundias de 1990 e 1994): “Se a gente pudesse ter feito sexo em todos os Mundiais, teríamos jogado melhor.” E o certo é que a tese de Valderrama é comprovada pela história. O orgasmo coletivo do golo parece estar ligado ao outro tipo de orgasmo.

Em 1994, Romário escapuliu-se da concentração do hotel nas vésperas dos jogos com Camarões e Suécia. “Ninguém viu, nem eu”, disse depois. Mas, de facto, ninguém deu por nada: o Brasil foi campeão e Romário foi o grande goleador do Mundial dos EUA. Em 1958 e 1962, o Brasil foi campeão do mundo com total liberdade sexual nas folgas. Zagallo, estrela dessa seleção, recorda a época: “Existiam os dias de treinamento e os de folga, e quem gostava de sexo fazia sexo.” A liberdade era total. Aliás, fica sempre a ideia de que, no passado, havia mais liberdade e menos complicações. Nem por acaso, basta recordar que o lendário Garrincha iniciou a sua tumultuosa relação com Elza Soares (cantora) durante o Mundial de 1962. Este adultério abalou o Brasil, mas não abalou as pernas de Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas. Aliás, Garrincha ganhou sozinho esse Mundial de 1962. Sim, um rabo-de-saia que estava sempre bêbado levantou o caneco. Na história, apenas um jogador se aproximou deste feito: em 1986, Maradona também venceu um Mundial sozinho. E, como se sabe, Maradona era tudo menos um menino de coro.

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