Paulo Rego - DO ÓPIO DO POVO ÀS ESTRATÉGIAS DE AFIRMAÇÃO - Plataforma Media

Paulo Rego – DO ÓPIO DO POVO ÀS ESTRATÉGIAS DE AFIRMAÇÃO

Ainda estava o Brasil longe da dinâmica económica e da relevância internacional que hoje em ostenta, quando os críticos apontavam o dedo aos pacotes inflacionistas lançados na semana em que era conhecido o campeão nacional de futebol. O país parava para sambar a glória dos vitoriosos, estando o resto da nação consternada com a depressão dos derrotados. Quando o povo acordava para a vida, a unidade monetária tinha mudado, ou os preços haviam disparado no supermercado… Os telejornais mostravam os melhores golos da última jornada e a festa na rua. Nunca foi por acaso. Mas a gestão política das emoções também não é um drama em si mesmo. Faz parte do jogo. O ópio do povo, por uns manipulado com mestria, é para outros o direito ao escape e à catarse de quem mergulha nas emoções do “desporto rei”.

Cabe às elites perceberem o que está em causa, separando o acessório do essencial.

A saga norte-americana Hunger Games, sucesso mundial de bilheteiras, mostra como um mundo destruído pela guerra encontra no jogo da caça ao homem – findo o qual apenas sobrevive o herói vencedor  – o ambiente controlado no qual se confrontam ódios e catarses que, temem as elites, de outra forma desembocariam em confrontos armados. Afinal, a velha lógica da arena em Roma não só sobrevive nas civilizações modernas como continua a ser projetada por visionários futuristas.

Começa no Brasil, no próximo dia 12, um dos dois maiores evento desportivo do mundo – apenas comparável aos Jogos Olímpicos – que tem a condão de condensar interesses económicos e de afirmação política, mas também o ego das nações e as mais fortes e sublimes emoções, num evento em que tudo gira em torno da vitória e na derrota. O Brasil e a Argentina, por força da arte e do engenho dos seus artistas, há muito provaram que a fantasia e a emoção, postas ao serviço do espetáculo, eram capazes de suplantar a teoria tática e a metodologia dos países europeus. A dúvida que se coloca é a de saber quando surgirão as equipas asiáticas a níveis competitivos que correspondam ao seu desenvolvimento económico e que lhes permitam adfirmarem-se  ao mais alto nível na arena do futebol.

Os Estados Unidos da América, com uma cultura desportiva centrada em desportos como o basquetebol, o voleibol ou o basebol, estão há duas décadas a promover as suas competências no futebol. Não são candidatos ao título, mas já não passam vergonha frente aos gigantes europeus e sul-americanos. Seleções como as do Japão e da Coreia do Sul são já internacionalmente respeitadas. Quanto ao Irão – treinado pelo português Carlos Queirós – a grande surpresa da fase de qualificação asiática, será talvez a maior incógnita desta Copa do Mundo.

A China dá ainda os seus primeiros passos, apostando na contratação de treinadores mundialmente conceituados e em jogadores famosos em fim de carreira, que trazem não só experiência como visibilidade global ao campeonato chinês de futebol. Foi assim que os Estados Unidos começaram. Mas, deste lado do mundo, o potencial é bem maior. Com a Índia parada no tempo – nem sequer tem ainda campeonatos nacionais organizados – a China arranca para um processo que, mais cedo ou mais tarde, a levará o aos campeonatos do mundo. Faz parte do negócio global, da gestão de egos e de emoções, mas também da natural estratégia de afirmação de um país que tem meios financeiros, interesse da população e um universo quase infinito de recrutamento de jogadores. Vai acontecer.

PAULO REGO

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