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Pedro Coito – A SURPRESA TÁTICA AINDA É POSSÍVEL

À medida que a tecnologia e o acesso à informação evoluem, menor é a diferença que as equipas e seus treinadores têm nos seus métodos de treino e evolução dos jogadores. No Mundial do Brasil essas semelhanças serão contrapostas por imensas variações dos sistemas de jogo clássicos a que nos habituámos. Esqueçam o 4-4-2 ou o 4-3-3, por esta altura as nuances na forma de jogar são o que diferencia as equipas e é por isso que, cada vez mais, o futebol é um jogo imprevisível.

As equipas que utilizam um sistema mais “clássico” são as menos evoluídas, como as equipas africanas e asiáticas. Destas, salta à vista uma seleção, o Japão, orientado por Alberto Zaccheroni. A evolução da formação dos jogadores nipónicos, aliada à sua grande capacidade de trabalho, transforma o que parece um rígido 4-2-3-1, num 3-6-1 com dinâmica, entusiasmo, e de grande dificuldade para travar. Esta transformação ocorre com a descida do trinco para uma posição a que, há 20 anos, chamaríamos libero, e deixa os laterais livres para fazerem parte do processo ofensivo.

Nos países com maior relevância no futebol mundial, vemos as pequenas variações que tornam os jogos de futebol numa autêntica partida de xadrez. Entre os sul-americanos, há uma certa tendência para o 4-3-3, sendo que o Brasil utiliza um duplo pivot defensivo (normalmente composto por Paulinho e Sandro) deixando a criatividade para Neymar, Hulk e Fred, bem como a Argentina, que com a diferença qualitativa entre ataque e defesa, tem de compensar com organização e números. É um 4-3-3 que mais parece um 4-2-4, já que Mascherano e Gago são peças defensivas e Di María não consegue ficar preso ao meio-campo.  Já a Colômbia inverte o triângulo do meio-campo e deixa para os extremos o trabalho de impedirem as investidas ofensivas dos laterais adversários.

Ainda na América do Sul, destaca-se o fabuloso exemplo do Chile. A equipa de Sampaoli é um caso à parte no futebol mundial. Apresenta-se num 3-4-3, algo que seria à partida, por si só, bastante invulgar, mas todo o sistema é uma invenção que poderá levar os chilenos a surpreenderem muita gente. Marcelo Diaz, jogador que desce para central formando o trio defensivo, é o primeiro construtor de jogo. Nas alas, Isla e Mena fazem todo o corredor, sempre com uma velocidade e resistência fora do comum. Arturo Vidal é o cérebro da equipa, dita o ritmo de jogo e, na frente, não existe avançado. Alexis Sanchez e Vargas abrem nas alas deixando espaço para Valdivia ser um híbrido entre falso 9 e número 10. Por tudo isto, o Chile é uma das equipas a seguir.

Falando em falsos “9”, é curioso reparar que duas das mais consensuais candidatas ao título se deverão apresentar dessa forma. Espanha e Alemanha abandonaram o conceito de ponta-lança para poderem privilegiar o seu estilo de jogo, em posse de bola e com grande segurança na sua manutenção, algo que os pontas-lança têm alguma dificuldade em fazer. Poderá discutir-se quem marcará os golos, mas com a capacidade de finalização dada pela quantidade “absurda” de médios que ambas as equipas possuem, essa é uma não-questão.

Outras equipas, como Portugal e Grécia, sabendo que a sua força não está no homem da frente, utilizam-no como referência para tabelas à entrada da área, podendo utilizar a explosão das suas estrelas que atuam, respetivamente, nas alas e no meio-campo. A Itália, em termos táticos, é sempre um caso à parte. Foram os transalpinos que introduziram as maiores inovações táticas e, na Série A, uma tendência pelo 3-5-2 alastrou-se para a seleção com grande sucesso. Foi com a consistência dos três centrais, aliada à capacidade defensiva dos seus alas e ao intelecto superior de Pirlo, que os italianos conseguiram chegar à final do Europeu 2012 e esperam voltar a repetir o feito em 2014.

O futebol mudou e para melhor. Existem tantas nuances que é impossível prever como vai uma equpa apresentar-se até se ver um onze inicial. Porque basta um nome para um sistema ser interpretado de maneira diferente. E é por estas constantes evoluções que as surpresas continuam a existir. No Brasil, novos sistemas demonstrarão as suas qualidades e os velhos serão adaptados ao adversário e à circunstância. Cá estaremos para os desmontar.

Pedro Coito , Mestrando de Coaching Football na Oxford University

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