Em 1989, Francis Fukuyama anunciou o “fim da História”. Com o colapso da União Soviética e o “triunfo” do modelo liberal ocidental, estaríamos, segundo o autor, perante o culminar da evolução ideológica da humanidade. A democracia liberal e o capitalismo teriam vencido — e o futuro seria apenas uma gestão pacífica desse consenso.
O que assistimos hoje não é o apaziguamento da História, mas sim o seu renascimento sob formas inquietantes. A liberdade democrática está em risco — e ironicamente, não pelas mãos de regimes totalitários estrangeiros, mas por forças internas que a corroem com eficácia: populismo, revisionismo, nacionalismo e autoritarismo. E nenhum símbolo revela isso tão bem quanto a controvérsia recente no Museu Nacional de História Americana do Smithsonian.
A decisão de remover temporariamente as referências aos dois ‘impeachments’ de Donald Trump da exposição “The American Presidency: A Glorious Burden” é um sintoma alarmante. O museu, pressionado por acusações de parcialidade e pela constante guerra cultural promovida por Trump, reviu o conteúdo histórico exposto — eliminando, ainda que por pouco tempo, um dos capítulos mais significativos da presidência contemporânea.
A explicação oficial para a remoção — supostamente motivada por critérios técnicos de atualização e apresentação — torna-se difícil de aceitar quando inserida no contexto mais amplo da relação conturbada entre Trump e o próprio Smithsonian. Este ano, Trump emitiu uma ordem executiva criticando o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana por promover uma ideologia “divisiva e centrada na raça”. Pouco depois, atacou pessoalmente Kim Sajet, diretora da National Portrait Gallery, acusando-a de ser “altamente partidária” e defensora de políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), levando à sua demissão. Além disso, foi sob pressão da Casa Branca que o Smithsonian iniciou uma revisão total de conteúdos e pessoal em todas as suas instituições, e semanas depois, coincidentemente ou não, as menções aos dois ‘impeachments’ de Trump desapareceram da exposição. A remoção é tanto factual quanto simbólica — e profundamente reveladora.
É irrelevante se houve ou não ordem direta da Casa Branca. O problema não é formal, é estrutural. Quando instituições públicas, que deveriam ser guardiãs da memória coletiva, sentem a necessidade de autocensura para evitar represálias políticas, a batalha está quase perdida. A ideia de que um presidente pode reescrever os próprios erros apagando-os dos museus é digna de regimes autoritários.
Fukuyama previu resistências: nacionalismos, fundamentalismos, autoritarismos. Mas acreditava que nenhum teria força para propor uma alternativa viável ao “liberalismo democrático”. O que talvez não antecipasse é que essas forças não precisariam de criar um modelo novo — bastava-lhes sabotar a memória, distorcer a narrativa, e dominar os símbolos.
Donald Trump não é um acidente. Ele é o sintoma mais visível de uma erosão mais profunda: da confiança nas instituições, da separação de poderes, da cultura cívica. Ao promover uma visão revisionista da História — seja nos museus, nas universidades ou nos meios de comunicação social — Trump reescreve a própria ideia de verdade pública.
É aí que o “fim da História” se revela uma ilusão perigosa. A História não terminou. Está a ser reaberta — e pode muito bem estar a escrever-se em direção ao seu oposto: não um triunfo da liberdade, mas um regresso calculado ao autoritarismo.
* Editor-chefe do PLATAFORMA