A Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau (ARTM) continua a desempenhar um papel central no tratamento e reintegração de pessoas com problemas de dependência em Macau. Fundada em 2000, a organização atua em quatro áreas principais: tratamento, redução de danos, prevenção e organização social — contando ainda com alguma intervenção em políticas de drogas.
A metanfetamina (“ICE”) permanece como a droga mais prevalente em Macau, com forte impacto em comunidades imigrantes. Já substâncias como a cocaína viram o seu consumo cair drasticamente após a pandemia, enquanto o álcool tem-se revelado uma das substâncias mais problemáticas, sobretudo pelos seus efeitos devastadores na saúde mental e na vida familiar. “Temos vários casos de internamento motivados pelo consumo excessivo de álcool, alguns com danos cognitivos irreversíveis. É uma droga legal, mas causa enormes estragos”, explica Augusto Nogueira ao PLATAFORMA.
O álcool está diretamente associado a casos de violência doméstica, divórcios e perturbações emocionais severas. Além disso, é um dos vícios mais difíceis de contornar devido à sua normalização social. “Mesmo quando a pessoa está em recuperação, é constantemente exposta: em festas, jantares, até no supermercado. É uma luta diária”, alerta.
A ARTM também chama a atenção para a ausência de respostas estruturadas para pessoas com problemas mentais graves associados ao consumo. “Temos um grupo que chamamos de ‘Special Care’, pessoas que não conseguem mais participar das atividades normais de uma comunidade terapêutica”, revela Nogueira. Algumas destas pessoas estão na instituição há mais de cinco anos, sem alternativa externa viável.
Atualmente, a ARTM acolhe cerca de 30 residentes em regime de internamento, mas o seu impacto vai muito além. Através de programas de rua, recolha de seringas e aconselhamento externo, a associação apoia mais de 100 pessoas, incluindo aquelas em regime de acompanhamento após tratamento (“aftercare”) e em regime ambulatorial.
De acordo com os dados do “Sistema do Registo Central dos Toxicodependentes de Macau”, citados pelo Instituto de Acção Social (IAS), em 2024, o número total de consumidores de droga registados em Macau foi de 148, um aumento de 24,4% relativamente a 2023. No entanto, a ARTM alerta que estes números podem estar inflacionados por detenções pontuais e não refletem necessariamente um aumento real de casos de dependência. “O consumo escondido poderá ser muito maior, mas só se torna visível quando há procura de ajuda ou atuação policial”, explica Augusto Nogueira.
O trabalho de reinserção da ARTM é visível no projeto comunitário instalado na zona de Ká Ho, onde um café, galeria e espaço infantil são geridos por pessoas em recuperação. “Este projeto permitiu não só dar formação e experiência a quem está em reintegração, como também combater o estigma: quem consome não é um criminoso, é alguém com um problema de saúde que precisa de ajuda”, sublinha o responsável.
A ARTM mantém colaboração estreita com escolas, comunidades minoritárias e entidades governamentais como o Instituto de Acção Social, mas apela por mais apoio institucional para espaços como o seu centro comunitário, que considera “estar um pouco abandonado”, apesar do seu potencial cultural e social.
“Fazemos a nossa parte, todos os meses temos uma exposição diferente. Mas precisamos de mais apoio para promover este espaço e continuar a mudar mentalidades”, conclui.