Há muito que as guerras deixaram de se travar apenas com bombas. Em Gaza, a fome tornou-se a arma mais silenciosa e devastadora de um conflito que já ceifou dezenas de milhares de vidas. A decisão deliberada do governo de Israel de restringir alimentos, medicamentos, água potável e combustível é mais do que uma medida de cerco: é uma forma de punição coletiva, de extermínio lento. De genocídio.
O que se passa em Gaza ultrapassa os limites da moral, do direito e da dignidade humana. Num cenário que envergonha a humanidade crianças estão a morrer à fome. E isto não é apenas um colapso logístico — é uma política calculada. É a fome como instrumento de guerra, a ser imposta a um povo inteiro.
Em apenas três dias morreram 21 crianças de subnutrição. Mais de 900 mil menores estão com fome.
A ONG Médicos Sem Fronteiras foi clara: estamos perante decisões “deliberadas e calculadas” das autoridades israelitas. Não é colateral. É intencional. A distribuição de alimentos — controlada por uma entidade apoiada por Israel e pelos EUA, a Gaza Humanitarian Foundation — é claramente insuficiente. De acordo com a Médicos Sem Fronteiras é “uma forma de ‘massacre disfarçado de ajuda’”. Milhares já morreram tentando simplesmente encontrar comida.
A comunidade internacional assiste. Alguns protestam com comunicados, outros exigem o acesso livre dos media. Mas a verdade é que Gaza continua a ser um campo de fome, bombardeado, isolado e cada vez mais esquecido.
Há quem diga que tudo isto começou com o ataque brutal do Hamas, a 7 de outubro de 2023. Mas nenhuma justificação é aceitável para transformar a comida em alvo, para matar crianças com o tempo e com a fome. O direito à vida — e à alimentação — é inalienável. E a sua negação, sistemática e premeditada, deve ser considerada um crime de guerra.
A fome é uma arma silenciosa. Não explode, mas destrói por dentro. E quando usada como instrumento político, revela o mais baixo nível a que uma sociedade pode descer.
O mundo deve deixar de olhar para o lado. Gaza precisa de um cessar-fogo. Precisa de ajuda humanitária sem entraves, de jornalistas livres para mostrar a verdade, e sobretudo, precisa de pão. Já não há espaço para neutralidade: diante da fome, o silêncio é cumplicidade.
* Editor-chefe do Plataforma