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Colaboração científica sino-lusófona com muito espaço para crescer

Macau quer afirmar-se como uma plataforma estratégica para a promoção da cooperação científica entre a China e os países de língua portuguesa (PLP) e, segundo vários investigadores ouvidos pelo PLATAFORMA, possui muitas vantagens em termos de financiamento, localização e apoio político. No entanto, a percentagem de estudos científicos realizados em colaboração com investigadores dos PLP ainda é reduzida e persistem desafios importantes a ultrapassar. Segundo Tiago Vasconcelos, professor auxiliar convidado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, “uma das formas práticas de se fazer essa cooperação é através do intercâmbio de estudantes”

Nelson Moura

Com investimento sustentado, uma visão estratégica e reforço da integração académica e empresarial, Macau poderá assumir um papel cada vez mais relevante na diplomacia do conhecimento e da inovação. André Antunes, reitor interino e professor associado no Instituto de Ciência e Ambiente da Universidade de São José, partilha da visão de que Macau é um ponto de articulação estratégico: “A cooperação em investigação entre a China e os países de língua portuguesa ainda está em desenvolvimento, ainda há muito espaço para crescer”, afirma ao PLATAFORMA, no âmbito de um simpósio realizado pela Universidade Cidade de Macau esta semana.

Antunes recolheu dados sobre a localização de coautores de publicações científicas de Macau entre 2000 e 2022, constatando que a China continental ainda está claramente na dianteira no número de investigadores, com Hong Kong, Estados Unidos, Austrália, e o Reino Unido a compor o restante ranking de colaborações.

“Portugal está numa posição relativamente boa, mas depois de um aumento no número de publicações científicas, e no que toca à percentagem do total de estudos, parece ter havido uma certa estagnação e até queda. Há espaço para melhorar estes números,” descreve.

“Também decidi pesquisar Angola, um PLP que tem grandes relações económicas com a China, e apenas dois estudos listavam investigadores de Angola e de Macau. Claramente ainda há muito que pode ser feito”.

Para o investigador, esta cooperação tem de ser fomentada através da articulação via Macau, e deve haver um maior alinhamento entre as prioridades de investigação e as áreas-chave mais dinâmicas nas diferentes universidades e investigadores.

Seria muito interessante que o maior número possível de estudantes dos PLP formados e educados em Macau, sobretudo nas áreas das ciências, pudesse vir a ser colocado em empresas dos seus países com ligação ao investimento chinês

Tiago Vasconcelos, professor auxiliar convidado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas daUniversidade de Lisboa

“Nem todas as universidades ou parceiros de investigação são os mesmos, por isso faz sentido que cada um se foque no que faz melhor e procurar parceiros na China ou em países de língua portuguesa que possam complementar essa investigação”, acrescenta.

Ainda assim, reconhece avanços significativos: “Como investigador em Macau, considero-me sortudo por o governo local ter considerado investimento em educação superior como uma prioridade. Temos visto um influxo maciço de investimento para apoiar universidades e investigação”. Para Marta Filipa Simões, professora de astrobiologia no laboratório estatal chinês para as ciências lunares e planetárias – SKLPlanets na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) – as dificuldades práticas ainda fazem parte do quotidiano. “Um dos maiores obstáculos para a cooperação é a barreira da língua, por exemplo, como não fluente em mandarim às vezes é difícil articular o que quero dizer em Macau”. A investigadora também aponta problemas de coordenação entre fusos horários, limitações administrativas e de financiamento, muitas vezes relacionado com alguns países de língua portuguesa com menos recursos e infraestruturas. No entanto, vê soluções possíveis: “Atualmente temos plataformas de comunicação flexíveis, ferramentas de tradução, e podemos efetuar mudanças em políticas institucionais. Apesar de tudo, redes globais de cooperação científica são essenciais”, explica ao PLATAFORMA.

Fortalecer o ‘soft-power’ chinês

Segundo Tiago Vasconcelos, professor auxiliar convidado no Instituto Superior de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, “uma das formas práticas de se fazer essa cooperação é através do intercâmbio de estudantes, treino de estudantes dos PLP aqui em Macau, graças ao seu posicionamento no projeto da Grande Baía”. O académico destaca ao PLATAFORMA a presença constante de mais de uma centena de estudantes oriundos dos países lusófonos em Macau, maioritariamente na área do Direito, e sugere um alargamento da oferta formativa: “Talvez esteja na altura de incentivar mais estudantes dos PLP, especialmente de África e de Timor-Leste, a estudarem engenharia ou medicina em Macau, mesmo que os cursos sejam lecionados em inglês”.

Angola, um país de língua portuguesa que tem grandes relações económicas com a China, e apenas dois estudos listavam investigadores de Angola e de Macau. Claramente ainda há muito que pode ser feito

André Antunes, reitor interino no Instituto de Ciência e Ambiente da Universidade de São José

Vasconcelos aponta ainda para a necessidade de integrar estes estudantes em cadeias de valor reais. “Idealmente, seria muito interessante que o maior número possível de estudantes dos PLP formados e educados em Macau, sobretudo nas áreas das ciências, pudesse vir a ser colocado em empresas dos seus países com ligação ao investimento chinês”. Para o professor, tal cenário permitiria não só o desenvolvimento de capital humano, mas também ajudaria a mitigar receios de “neocolonialismo” por parte de alguns países africanos, fortalecendo o ‘soft-power’ da China através de Macau.

Com a criação do Centro de Testes da Medicina Chinesa de Macau em 2024 e o lançamento de novos cursos na área da medicina e das ciências biológicas, abriu-se uma nova frente de colaboração triangular entre Macau, Portugal e outros países de língua portuguesa. “Este ecossistema apresenta um potencial promissor para reforçar o papel de plataforma de Macau e fomentar a cooperação com a União Europeia e os PLP”, acrescenta Vasconcelos.

Atualmente temos plataformas de comunicação flexíveis, ferramentas de tradução, e podemos efetuar mudanças em políticas institucionais. Apesar de tudo, redes globais de cooperação científica são essenciais

Marta Filipa Simões, professora de astrobiologia

Macau pode assumir um papel cada vez mais relevante na diplomacia do conhecimento e da inovação. Como diz Vasconcelos, “às vezes pomos as expetativas muito altas, mas é por pequenos passos que se faz o caminho”.

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