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A Rota que nos pariu

Paulo Rego*

A arte não é propriamente uma festa; antes pelo contrário. Vem do fruto da inquietação; da desconexão, da inversão do real – ou da sua aparência… dessa eterna angústia de perceber o existir. Esse estado de alma, motor da criação; é uma dor exigente, solitária; até perigosa para a sanidade mental. Já um festival, neste caso literário, é um momento de celebração coletiva; porque mostra ao pequeno mundo exterior o tamanho infinito do mundo interior. O Rota das Letras, que ilumina Macau – cada um de nós – há 14 edições, é parte vital dessa ilusão de que temos arte para sermos mais do que a vida nos dita. Merece por isso – como outros – bem mais que o aplauso da prova de vida. O que vale mesmo a pena é senti-lo, plasmá-lo no sangue – vivê-lo.

Diz Carlos Morais José, vice-diretor do Festival: “Celebrar a literatura é, por isso, também celebrar a nossa imperfeição, inconsistência e vacuidade; ou seja, o que nos faz ousar a criação de novos mundos nos interstícios de milhões de existências e nos dota de alguns laivos de beleza trágica”. Ricardo Pinto foi sempre somando à literatura as artes plásticas – e performativas – para comunicar uma Macau multifacetada, multicultural e multidimensional. Com emoção, e lucidez, comenta João Miguel Barros, num grupo de WhatsApp: “Só um herói faz um Festival como este, em Macau, nos tempos que correm!”. É verdade; e pelos piores motivos. Aposto que o Ricardo preferia mil vezes ter ganho outro lastro, massificado a fruição; conquistado a ilusão da normalidade. O ego, insano e quixotesco, de ser sempre o farol da impossibilidade, dói na alma, pesa na carteira, descarna a energia do fazer.

Passado o drama pandémico; mantida a restrição orçamental… repito o que sempre disse; com o medo de eu próprio esquecer: a coragem, a visão estratégica, o espírito de missão… merecem palmas. Mas é muito mais útil pôr a vida a produzir, espalhar o hábito de consumir, dar ao Festival maturidade coletiva. Caso contrário, de nada valem depois as lágrimas de crocodilo, quando o herói se cansar; quando disser que se vai, deixando-nos órfãos daquilo que, no fundo, nunca tivemos o saber de adotar.

Vale isto para o Governo – e casinos – sustento destas coisas; que nem sempre percebem a real dimensão que o Rota das Letras merece – e devia ter. Mas vale também para que todos, e cada um de nós, possamos refletir sobre a cidade que exigimos aos outros – e a nós próprios. Como muita gente ainda hoje faz – reconheça-se – em contextos tão ou mais difíceis que o do Rota das Letras. Mas não é com o nó-górdio da carolice que se desfraldam as velas da alma.

É da natureza da besta humana menosprezar o que está à mão, parece fácil e garantido; como é da nossa cultura chorar só depois do leite derramado, deixando azedar o que pode animar a malta. É minha convicção que a manifestação artística, como o debate público, são bens maiores que os processos de produção/exposição. Por isso digo que este espaço onde me exprimo não é o palco de quem o usa; mas antes o universo de quem o lê – e nele pensa. Como sinto – muito – que muito poucos percebem isso; quero aqui partilhar com o Ricardo: sinto a luz que nos deu como parte do universo que é nosso. Por isso digo obrigado.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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