Durante algum tempo, acreditou-se que a reaproximação de Donald Trump a Vladimir Putin traria uma nova ordem mundial dominada por uma tríade de superpotências: EUA, China e Rússia. O espetro dessa aliança redefiniria o xadrez global, criando um bloco com capacidade para contornar qualquer organismo multilateral e reconfigurar as regras da economia e da geopolítica à sua imagem. No entanto, a história raramente permite alinhamentos tão convenientes. A realidade geoestratégica, tal como demonstraram os tratados falhados do século XX, resiste a equações demasiado estáveis. Em Pequim, desconfiou-se desta tríade de governação. A reaproximação de Trump foi vista como uma tentativa de desmontar a aliança entre Moscovo e Pequim, pondo fim à sua cooperação estratégica e, com isso, enfraquecendo o avanço chinês.
A lógica é simples: para que a doutrina protecionista e isolacionista de Trump funcionasse, era imperativo separar Putin de Xi Jinping. Uma Rússia absorvida pelo Ocidente limitaria a China em recursos energéticos e minerais, travando a sua corrida tecnológica e comercial. A Ucrânia, que concentra cerca de 6% das reservas mundiais de terras raras, e a própria Rússia, cuja dependência económica da China cresce ano após ano, seriam peças fundamentais para este plano. Washington, no entanto, falhou em prever que a sua política externa compromete o que tenta dar a Putin – um regresso à globalização através do G7 – ao afastar-se dos seus aliados históricos.
Enquanto os EUA se fecham, a China reabre. Pequim oferece-se como fiador da globalização pela voz do primeiro-ministro Li Qiang. Ao rejeitar a tríade como modelo de ordem mundial, Pequim transmite um sinal claro aos restantes atores globais: podem confiar na China para conservar a previsibilidade do sistema. Ao mesmo tempo, anula a principal jogada de Trump – a de uma Rússia reintroduzida no sistema ocidental –, pois entrega a Putin exatamente aquilo que Washington propunha, mas sem as flutuações eleitorais norte-americanas e com a segurança de uma aliança “sem limites”.
Apesar da nova configuração acelerar a ascensão dos BRICS e reposicionar blocos como a Lusofonia, expõe um problema central: a estabilidade das últimas décadas foi garantida por um equilíbrio de forças entre dois blocos opostos, que se continham mutuamente. A ascensão da China, no contexto atual, não cria novos equilíbrios; inclina a balança. Se Pequim se consolida como o único eixo de estabilidade, sem um contrapeso à altura, estaremos perante uma globalização assimétrica. Os centros de decisão passam a deslocar-se sem resistência significativa, comprometendo a autonomia de atores regionais.
Trump, por mais imprevisível que seja, nunca aceitará essa perda de hegemonia sem reação, tal como impérios raramente recuaram de forma pacífica. Há muito que se indexa a armadilha de Tucídides ao conflito EUA-China, mas a associação chinesa ao velho continente aumenta o medo. A questão não é se o mundo aceita a ascensão da China, mas se a Casa Branca a permite sem um confronto direto. Como dizia Henry Kissinger, “a paz só pode ser alcançada por hegemonia ou por equilíbrio de poderes.” Resta saber qual nos espera na nova ordem mundial.
*Diretor-Executivo do PLATAFORMA