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“As condições salariais que Macau oferece [para investigadores] já não são competitivas”

No âmbito da comemoração do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o PLATAFORMA entrevistou Marta Filipa Simões, investigadora de astrobiologia no Laboratório Estatal de Ciência Lunar e Planetária (SKLPlanets) desde a sua fundação na Universidade de Ciência e Tecnologia (MUST), em 2018. Após experiências em Portugal, Arábia Saudita e Reino Unido, Macau tornou-se a sua cidade de eleição, mas Simões avisa que a RAEM tem dificuldades em oferecer condições competitivas na atração de especialistas do estrangeiro e mesmo do interior da China

Nelson Moura

– Participou esta semana com outras investigadoras num evento online para alunos, organizado pelo Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), o Planetário do Porto, e o PLOAD – Grupo Lusófono de Astronomia para o Desenvolvimento. Qual a importância destes eventos para reduzir a desigualdade de género nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática?

Marta Filipa Simões – Faço parte do PLOAD, sou a coordenadora de Macau. É por isso que estou envolvida neste evento. A ideia deste evento não é falar exatamente da nossa investigação, mas sim mostrar que ser cientista não é assim tão impossível. Aquilo que pretendemos com este tipo de ações é mostrar que não é impossível; é apenas tão difícil como qualquer outra profissão. Basta querer.

– Como alguém que já trabalhou em vários países diferentes, consegue fazer uma comparação com o que vê em Macau ou na China em termos da presença das mulheres nas ciências?

M.F.S. – Em Portugal, acho que o número de mulheres na ciência não é uma problemática, ou seja, as raparigas, quando estão a crescer, não veem uma profissão na ciência como algo impossível ou que não é para elas. Em Portugal, o número de mulheres na ciência é até capaz de ser maior que o dos homens, pelo menos em termos de estudantes femininas no Ensino Superior. Nos outros países, varia um pouco, e em Macau, pelo menos no meu caso, a diferença de género dos alunos nas aulas que dou é de cerca de 50% por cada género. Mas a ideia de as mulheres trabalharem na ciência, em muitas áreas e em muitos países, ainda é algo que não é visto como uma coisa normalizada. Não está assim tão acessível quanto isso.

Em Macau, pelo menos no meu caso, a diferença de género dos alunos nas aulas que dou é de cerca de 50%
por cada género

– Também têm colaborado com entidades e universidades de outros países lusófonos em iniciativas semelhantes?

M.F.S.– O PLOAD tem colaboradores de vários países, como Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e Timor. Somos um grupo bastante disperso em toda a Lusofonia. E, claro, depois, estes tipos de ações que nós temos estendem-se a esses países, onde, sim, muitas vezes esta questão é problemática. Não só especificamente em relação ao género feminino, mas relativamente ao acesso à ciência no geral. Mas está cada vez melhor e temos esperança no futuro.

– Como descreve o trabalho feito pelo laboratório nestes seis anos desde a sua fundação?

M.F.S. – Vim um bocadinho antes da pandemia. Quando eu e o meu marido, [André Antunes, anteriormente líder da equipa de astrobiologia da MUST] chegámos, o SKLPlanets ainda não existia, fomos nós que ajudámos a implementar o laboratório onde trabalho. Os anos da pandemia foram complexos, difíceis por tudo o que envolveu, mas fora isso, acho que estamos a desenvolver trabalho que não está a ser desenvolvido em mais nenhum lado. Ainda somos o único laboratório na China onde se faz astrobiologia.

No meu caso específico, trabalho maioritariamente com fungos, que também é algo não tão comum dentro da astrobiologia. Tento perceber a importância dos fungos para a exploração espacial, como os podemos usar. Vemos como se comportam de maneiras diferentes em ambientes extraterrestres, de microgravidade, por exemplo, como os podemos explorar, e se podem ser mais perigosos. Nestes ambientes extremos, podem ficar mais patogénicos, podem produzir maior quantidade de compostos que já são conhecidos, antibióticos, por exemplo, ou produzir compostos completamente diferentes. Tudo isto ainda é muito novo, mas como a exploração espacial está a desenvolver-se cada vez mais, precisamos urgentemente de ter mais informação nesta área.

Foco-me em fungos, mas claro que há muita outra investigação dentro da astrobiologia, porque é uma área muito interdisciplinar. Nesta altura, estou só eu na MUST. Há mais dois investigadores que estão dentro do grupo que era anteriormente o grupo de astrobiologia, mas temos agora outro diretor, por isso a estrutura do centro está um pouco diferente. Estou a implementar o meu grupo e vamos ver o que acontece no futuro.

Temos vários programas [de atração de talentos] que no papel não são maioritariamente focados no interior da China, mas que, na prática, são

– Em termos dos projetos que têm planeados para este ano, quais são as prioridades?

M.F.S. – Há vários projetos relacionados com fungos. Nesta altura, tenho amostras recolhidas em vários sítios para processar. Estive, por exemplo, numa expedição um mês inteiro no fim de 2023 no Mar Vermelho, onde recolhi amostras de vários tipos em água de salmoura, água de salinidade mais elevada. Tenho também amostras da Antártida, onde o meu marido foi fazer uma expedição um mês.

Portanto, temos várias amostras de vários ambientes extremos, que são considerados ambientes terrestres análogos, ou seja, ambientes que têm algumas características similares com ambientes fora do nosso planeta.

A ideia é fazer isolamentos, e aí não só de fungos, de vários tipos de microrganismos, para ver a diversidade microbiana nestes ambientes extremos, e procurar espécies ou estirpes novas, com características ligeiramente diferentes, e depois tentar explorá-las e ver o que produzem, o que fazem, e como é que podemos usar. Tenho também amostras que foram expostas a hipergravidade, um projeto que consegui através do Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior e da Agência Espacial Europeia (AEE).

Estive algumas semanas numa instituição da AEE nos Países Baixos, onde existe uma centrifugadora de largo diâmetro que permite simular hipergravidade. Expusemos um conjunto de cerca de 20 fungos a estas condições e já processámos grande parte das amostras. Também temos um equipamento no laboratório que nos permite simular microgravidade e vamos estudar como este tipo de fungos reagem. São vários projetos e trabalho não falta.

– Como investigadora com vasta experiência no estrangeiro, o que acha que Macau poderia melhorar em termos de atração de profissionais?

M.F.S. – É um assunto complicado porque, sim, fala-se muito e fazem-se várias coisas para dizer que se faz, mas depois, na prática, não se traduz em muito. Grande parte das ações que vejo, pelo menos aqui na MUST, focam-se em trazer investigadores de fora, mas acabam normalmente por vir da China continental.

Depois temos um problema que é, para os investigadores da China continental, Macau também já não é atrativo, porque as condições salariais que Macau oferece já não são competitivas. O interior da China nesta altura tem melhores condições salariais e de benefícios extra do que Macau. Sim, temos vários programas que no papel não são maioritariamente focados na China, mas que, na prática, são. Depois quando se quer realmente implementar, a coisa fica complicada, porque depois da China não há tanto interesse. É um assunto complexo.

– A questão da residência também complica?

M.F.S. – Sim, está a ficar cada vez mais fácil, mas mesmo assim parece não ser ainda o suficiente. Claro que o facto de tantas universidades estarem a expandir para Hengqin vai facilitar toda essa logística, mas mesmo assim não sei se será o suficiente para fazer a diferença e trazer realmente grandes talentos. Mas pronto, acabo por ficar um bocadinho à margem desses assuntos, porque tenho tendência a focar-me apenas na minha área.

– O que a levou a vir para Macau?

M.F.S. – O facto de ver a mistura da cultura portuguesa com a cultura chinesa, porque sempre achei a cultura chinesa muito interessante, mas não conhecia em termos de vivência e queria experimentar.

Eu e o André estávamos no Reino Unido e depois do Brexit começámos a ver todos os nossos amigos a sair e pensámos que, se calhar, também devíamos sair. O primeiro sítio que concordámos procurar como alternativa foi a China, e Macau acabou por ser a primeira opção. Foi a mistura das culturas que fez a diferença. Gosto muito de estar em Macau, tem muita coisa interessante, e a vinda para cá foi um sucesso.

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