Início » Viaduto entre Zona A e B não convence

Viaduto entre Zona A e B não convence

A construção de um viaduto para ligar os aterros da Zona A e B reacendeu um debate público, com várias vozes a questionar se um túnel não serviria melhor as necessidades da população e do turismo. Enquanto que o Governo defende que a alternativa teria maior impacto na zona costeira e prejudicaria a conectividade pretendida para o projeto, um engenheiro sublinha a importância de considerar o túnel para planos de futuro

羅嘉華 Carol LawCarol Law

A construção de um viaduto para ligar os aterros da Zona A e B leva alguns a recear que a pressa em estabelecer novas ligações possa descaracterizar a identidade de Macau. Nesse sentido, pedem uma avaliação rigorosa de como conciliar progresso e património, garantindo que os espaços públicos e o apelo turístico não sejam sacrificados em prol de obras mais rápidas, fáceis e baratas.

Num vídeo publicado recentemente pela Associação de Sinergia de Macau, o urbanista e ativista Rhino Lam sublinha que o viaduto ficará muito próximo de um parque infantil, sendo que a implantação de uma estrutura rodoviária de grande dimensão tão perto de uma zona familiar gera ruído e efeitos visuais desagradáveis, pondo em causa um dos raros espaços recreativos para crianças na cidade. No mesmo vídeo, uma residente expressa descontentamento com a perda de árvores para a construção do viaduto, sublinhando que a infraestrutura choca com as aspirações estéticas da zona costeira.

Manuel Iok Pui, profissional do setor do turismo, reforça que o viaduto vai muito provavelmente obstruir a paisagem costeira originalmente anunciada como parte de um corredor ribeirinho mais aberto e convidativo. Nesse sentido, teme que o plano inicial, pensado para oferecer aos moradores e visitantes uma ligação apelativa entre a Zona A e a ponta sul da península de Macau, seja eclipsado por um processo de conceção que não considerou suficientemente o impacto que vai ter para os habitantes e para o turismo.

Conectividade contestada

As autoridades dizem que um túnel exigiria escavações muito mais extensas e rampas inclinadas mais longas, forçando demolições perto da estátua de Kun Iam e encerramentos de estradas significativos. Também argumentam que a saída de um túnel nessa área reduziria a conectividade essencial entre as Zonas A e B e o distrito do NAPE, enfraquecendo a função de conectividade que o projeto pretende reforçar. Além disso, sublinham que os túneis são geralmente mais dispendiosos e de construção complexa. Ao ponderar custos, viabilidade e considerações de planeamento urbano, optaram por um viaduto.

Porém, o engenheiro Addy Chan diz ao nosso jornal que os túneis, embora mais caros e mais difíceis de construir, oferecem vantagens na preservação da zona costeira de Macau e podem, inclusive, integrar-se de forma mais harmoniosa com os planos de transporte futuros, nomeadamente uma possível quinta ligação entre Macau e Taipa – túnel subaquático entre ao lado da Ponte Governador Nobre de Carvalho com o propósito de ligar as Zonas B e D. “Depois da construção do viaduto, como é que este se iria ligar à quinta ligação?”. Mais, Chan acredita que é provável o novo viaduto apenas transferir o congestionamento para outras artérias da cidade, sobretudo na Avenida Dr. Sun Yat-Sen e na zona do One Central, que já apresentam tráfego intenso.

A sugestão de Chan passa pela construção de um túnel como via rápida externa, que desviaria o tráfego automóvel do centro movimentado de Macau, ligando-o por fim à Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e à Ponte Sai Van. O engenheiro acrescenta que, dado existirem parcelas de terreno na Zona B ainda por atribuir, as autoridades deviam reconsiderar o planeamento, aproveitando esta fase, antes de as exigências do mercado imobiliário se intensificarem.

Opiniões desvalorizadas

Já o deputado Ron Lam afirma que a mudança do Governo para um viaduto ignora conclusões de estudos anteriores que incidiam sobre túneis, alguns remontando a 2012. Esses trabalhos de pesquisa incluíam análises de peritos e avaliações de impacto ambiental, que aparentemente apoiavam a opção do túnel. Lam, como outros, afirma que as autoridades nunca realizaram uma consulta pública dedicada ao viaduto e não divulgaram avaliações ambientais ou técnicas atualizadas.

Joe Chan, vice-presidente do Fundo Verde de Macau, partilha preocupações semelhantes relativamente à transparência. Ao PLATAFORMA, diz que as famílias que vivem perto do local podem enfrentar um aumento de poluição atmosférica, congestionamento rodoviário e ruído, sem terem tido oportunidade de apresentar opiniões ou receber detalhes abrangentes sobre as consequências ambientais. Para Chan, é fundamental que as partes interessadas possam contribuir diretamente, tendo em conta o impacto que o projeto pode ter na sua qualidade de vida.

Entretanto, as autoridades voltaram a abordar o assunto esta semana: “Relativamente à construção de acessos nas Zonas A e B dos Novos Aterros, a que os cidadãos têm prestado atenção nos últimos dias, o Governo recolherá as suas opiniões e procederá a uma análise integrada. Se surgirem mais informações, serão tornadas públicas em devido tempo”, lê-se no comunicado. Ainda assim, reafirmaram que “a conceção do [viaduto] está em curso”.

Custo esperado da ponte

Dados oficiais indicam que o viaduto custará cerca de 2.18 mil milhões de patacas e terá aproximadamente 3.2 quilómetros de extensão, incluindo uma estrutura principal de cerca de 1.550 metros e mais 900 metros sobre o mar. O projeto contempla quatro secções navegáveis, cada uma com cerca de 130 metros, e o ponto mais alto da construção rondará os 25.8 metros acima do nível do mar. O Governo garante que, por não se tratar de construção de edifícios, esta obra não está sujeita a determinadas regulamentações, sendo que o contrato vigorará entre outubro de 2024 e outubro de 2027.

Embora as autoridades sustentem que um viaduto é mais prático e económico, muitos continuam preocupados com o impacto na reputação turística de Macau, na proteção ambiental e nos objetivos de mobilidade a longo prazo. Aqueles que ainda preferem um túnel argumentam que uma consulta mais abrangente poderia ter gerado uma solução equilibrada entre as necessidades de transporte e o desejo da comunidade por uma zona costeira vibrante e adequada às famílias. Os apelos a favor de maior transparência e de novas revisões ambientais sobre projetos de natureza pública têm aumentado nos últimos anos.

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website