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A beleza de Macau está na união da diferença

Paulo Rego*

O conflito na Escola Portuguesa, pelo perfil dos seus decisores; e dos contestatários mais radicais – PSD Macau incluído – ultrapassou em vários momentos a discussão pedagógica e as críticas à gestão, roçando o desenho de uma “guerra étnica”: alguns macaístas de um lado da barricada; alguns portugueses do outro. Erro crasso, de todos, que não só não representa como irrita o sentir da maioria das comunidades envolvidas. Nunca fez sentido; nesta altura faz muito menos.

A comunidade dita expatriada, reduzida em número e relevância, não tem hoje dimensão social e económica, nem acesso político, para cumprir a cidade bilingue e multicultural que no desenho autonómico chinês marca a diferença para o Continente; e serve de plataforma com os países lusófonos. Os macaístas, filhos da terra, não têm network nem lastro geográfico e profissional para cumprir esse desígnio sem as comunidades lusófonas – que têm é de crescer. A proteção de que beneficiam os macaístas, na lógica de minoria étnica chinesa, serve para muita coisa – não certamente para esse fim, nem para comover a Dinastia Han. Juntos, e unidos, somos todos curtos para tão grande desígnio.

Mesmo que não se interessem pelo bilinguismo, e culturas lusófonas, sabem bem que há instruções para preservar esse legado; e vivem na pele e na alma a diferença que isso faz em Macau, face a Zhuhai ou Cantão. Se não querem mantê-lo… deviam

Como diz Miguel de Senna Fernandes, no debate sobre bilinguismo e plataforma, organizado por este jornal, a RAEM tem de sentir a língua portuguesa como sua. Mais do que oficial, do ponto de vista jurídico-constitucional; é estratégica, na relação com os países lusófonos; e identitária, no sentido em que o cruzamento entre culturas, que há séculos por cá convivem, está na base da ideia de Macau. Sem isso a cidade especial passa a ser um bairro de jogo, sorvido pela Grande Baía. Mas também é bom que se perceba a lucidez de Calvin Chui que, no mesmo debate, pede o respeito mútuo que não sente quando os portugueses eternizam a ilusão de que não precisam aprender chinês. É mesmo precisa essa consciência; por muitas histórias da carochinha que se contem sobre os séculos que passaram – mas não voltam mais. Faço parte das gerações que perpetuaram esse erro; não dou lições a ninguém. Mas este jornal mostra bem a consciência disso; no bilinguismo – difícil – que este projeto persegue.

A paixão pela Mãe Pátria, segurança nacional, e integração regional, que dominam os discursos do novo Executivo vertem bem a dinâmica política atual. É natural, faz parte do tempo que tinha de chegar. Mas a China; a RAEM, Portugal, e todos os países lusófonos, só têm a ganhar se contrariarem o facilitismo com que o desenho político da China pode desabar, caso não façamos – todos – questão de o agarrar. Em todos os momentos e contextos; sejam eles institucionais, empresariais ou pessoais. Incluindo – e a começar – pelas comunidades de língua e cultura materna chinesa. Mesmo que não se interessem pelo bilinguismo, e culturas lusófonas, sabem bem as instruções da Mãe Pátria para preservar esse legado; e vivem na pele e na alma a diferença que isso faz em Macau, face a Zhuhai ou Cantão. Se não querem mantê-lo… deviam. Para isso precisam de todos os que são diferentes; e de zelar por isso.

Uma missão política não garante um desígnio histórico. As pessoas é que guardam e dão vida à cultura, a oportunidade económica dá-lhe gás; e a pressão popular traz os políticos à terra. A esta terra, como ela é, com obstáculos óbvios ao valor do destino que é seu. É preciso juízo; consciência política, histórica, cultural e económica. Todos, e cada um, por maiores que sejam os debates e pareçam as diferenças. Afinal, é essa a maior beleza de Macau.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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