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Internacionalizar Macau é ser patriota

Guilherme Rego*

O Conselho de Estado nomeou o novo Governo da RAEM, “com base nas indigitações” do próximo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai. André Cheong (Administração e Justiça) e Wong Sio Chak (Segurança) são os únicos secretários que mantêm os cargos. Tai Kin Ip, dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, vai substituir Lei Wai Nong como secretário para Economia e Finanças. A secretaria dos Transportes e Obras Públicas, liderada nos últimos dez anos pelo macaense Raimundo do Rosário, vai para as mãos do diretor dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), Raymond Tam. A tutela dos Assuntos Sociais e Cultura fica a cargo de O Lam. Teremos o primeiro Chefe do Executivo bilingue, que traz a equipa governativa com mais mulheres na História – três em 10. Ao mesmo tempo, é também a primeira vez que não há um único macaense nas secretarias, e apenas cinco dos 10 são naturais de Macau. Salienta-se que este grupo vem com muita experiência na Administração Pública, o que pode vir a ser bastante útil, sobretudo na rápida adaptação à nova realidade.

Macau faz parte da China, e mal seria se não se fomentasse esse sentimento de pertença; mas se não for equilibrado, podemos estar a desenvolver uma Região num sentido único, onde o amor pela Pátria ofusca a necessidade de internacionalização

Como já era de esperar, é uma equipa altamente patriota, e focada em incutir esse amor nos vários quadrantes da sociedade. O Lam quer “reforçar a base de predominância da cultura chinesa”, apontando que a “cultura de Lingnan (cantonesa) também é muito importante”. Espero que não se esqueça da importância da cultura portuguesa, quer não seja pelo seu valor turístico. Fora o jogo, o que traz visitantes é a marca “East meets West”, que os próprios turistas hoje reclamam de ser falsa publicidade. Na semana passada, no Plataforma Talks, discutimos o bilinguismo e aquilo que pode dar a Macau. Foi abordada a vertente cultural e a técnico-profissional, que em muito depende do estímulo que se dá à primeira. Por um lado, defende-se que a língua portuguesa só sobrevive se houver vontade política: reforço do ensino da língua e da cultura viva. Por outro, também se defende que esse método se trata de “forçar” a sociedade a ser bilingue, e que isso não será bem aceite. Concordo com as posições assumidas pelos dois convidados, sendo que há soluções que, como Macau, encontram o caminho do meio. Não é preciso “forçar” o bilinguismo, mas pode premiar-se essa competência – um pouco à semelhança dos programas de atração de talentos. Durante o debate, falou-se do mecanismo de contratação de funcionários públicos e como o bilinguismo pode ser valorizado na escolha dos concorrentes. É uma forma de mostrar vontade política e de incentivar o bilinguismo; não se trata de um requisito à entrada (como é o domínio do chinês), nem compromete a contratação de um candidato mais adequado, mesmo que não domine a língua.

Macau faz parte da China, e mal seria se não se fomentasse esse sentimento de pertença; mas se não for equilibrado, podemos estar a desenvolver uma Região num sentido único, onde o amor pela Pátria ofusca a necessidade de internacionalização. Esta última depende das raízes culturais de Macau que, por natureza, já a tornam num ponto de encontro de culturas distintas – com as suas próprias línguas – e que está a erodir. O bilinguismo e a internacionalização não são antónimos do patriotismo. Há duas pastas onde esse equilíbrio é fundamental. A sociedade pode ser patriota, mas também multicultural e multilingue; e isso parte da educação que é dada. Por outro lado, também se deve criar um ambiente de negócios que proteja os interesses de Pequim, mas que transmita confiança ao mundo. Falo, claro, da pasta dos Assuntos Sociais e Cultura; e da pasta de Economia e Finanças. Aquilo que separa Macau da China é precisamente aquilo que a torna interessante para Pequim, sendo necessário também reforçar essa identidade a todos os níveis. Diria que ser patriota é precisamente garantir que isso aconteça.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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