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Filtros do desenvolvimento

Guilherme Rego*

Na última semana, integrei uma delegação de jornalistas de língua portuguesa e inglesa que visitou Xiongan e Xian, entre 29 de agosto e 1 de setembro, a convite do Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China na RAEM (ver páginas 14 /15). Como é apanágio nestas viagens, a bem conseguida organização permite-nos, em pouco tempo, analisar de forma compreensiva as diferentes fases de desenvolvimento destas cidades.

Há muito a aprender com as duas; e ambas podem aprender com Macau. Tal como Xiongan surge para resolver os problemas de Pequim, Hengqin aparece para oferecer soluções a Macau. E tal como Xian se desenvolve sendo fiel à sua herança cultural e histórica, Macau cuida de fazer o mesmo. As boas práticas de uma podem ser repercutidas pela outra; já os erros cometidos por uma não têm de ser repetidos.

O que é transversal em todas é o guião claro para a economia e integração no desenvolvimento nacional. Sem descaracterizar aquilo que são os recursos e traços culturais de cada uma, há uma aposta feroz na produção de alta qualidade. A China quer uma economia alicerçada na tecnologia e inovação, rasgando com o passado não muito longínquo de exportador de baixo valor.

Macau nunca será competitivo se a poucos quilómetros estão empresas com mais recursos humanos – tão ou mais qualificados – e, mesmo assim, com menores custos de produção. A solução é mesmo ser uma porta para o resto do mundo

Hoje vemos empresas chinesas a dar cartas em todo o mundo. A Huawei luta por contratos de 5G; a BYD domina redes de transportes públicos em vários países; construtoras estatais erguem infraestruturas vitais em África e na América Latina; a Alibaba revolucionou o comércio eletrónico. Estes, entre muitos outros, são exemplos da afirmação chinesa – que só não é maior pelos muros edificados a Ocidente.

Mas há também perigos quando se envereda por um desenvolvimento filtrado. Porque nem todos querem ser engenheiros, informáticos, azes da ciência, ou cérebros da banca. Há outros interesses, e também outras necessidades, entretanto ofuscadas pelas novas indústrias, também afetadas pela crise económica – começam a cortar postos de trabalho. As estatísticas do desemprego jovem nacional já não são publicadas desde junho de 2023 – quando atingiram o recorde de 21,3%.

O guião para o desenvolvimento só tem ligeiros desvios, fundamentados na herança de cada região. Em Macau, esse desvio trata-se da construção da ponte com os Países de Língua Portuguesa. Nas indústrias identificadas para a diversificação económica, em muitas há inexperiência a nível local e falta de competitividade, como nas finanças modernas e big health. Naquelas em que a RAEM tem um bom desempenho, nomeadamente no turismo, passaram a ser combinadas à porta fechada, num arranjo entre o Governo, concessionárias, e uns quantos sortudos.

Quem ainda sobrevive, mais tarde ou mais cedo será vítima da integração regional, caso não se vire para fora. Como tudo, se no início era impossível prever todos os efeitos colaterais de uma boa ideia, a meio já nem tanto. Macau nunca será competitivo se a poucos quilómetros estão empresas com mais recursos humanos – tão ou mais qualificados – e, mesmo assim, com menores custos de produção. A solução é mesmo ser uma porta para o resto do mundo.

Até planos quinquenais precisam de ser flexíveis, para se ajustarem a novas conjunturas domésticas e internacionais. Não é preciso alterar o guião, mas sim saber gerir os ‘timings’ daquilo que é obrigatório (diversificação) e daquilo que é inevitável (integração regional). No fundo, garantir que os interesses locais são salvaguardados.

Hoje, o tecido empresarial de Macau precisa de um Governo muito mais ativo do que aquilo que teve no pós-pandemia. À exceção das concessionárias, nada está como devia, e ninguém demonstra resiliência à integração.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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