O mundo não parou, mas Macau parece que sim… à espera para ver. Sam Hou Fai não deve ter concorrência. Era giro; até benéfico para a imagem do sistema político. Mas não é crível que Pequim tenha adiado tanto tempo a indicação para agora promover um real desafio eleitoral. Este é o juiz da solução.
O futuro Chefe do Executivo é o sénior de uma geração que veio do Continente com a missão de cumprir os 20 anos de residência, exigidos à governação, preparando-se como solução alternativa à elite local. E esse futuro chegou, como regra geral chega quando é desenhado pelo regime chinês. Sam Hou Fai ultrapassa outros nomes, preparados para o mesmo efeito, tais como Wong Sio Chak ou André Cheong. Bilingue, estudou em Portugal, e conhece bem esta ideia de cultura híbrida, que só pode resistir se for encontrada a compatibilidade entre o coração da Mãe Pátria, o sangue nacionalista, e a alma internacional de Macau. É um legalista, conservador; até nacionalista, dizem vozes da corporação jurídica, que experimentaram a sua mais alta influência e magistratura. Será mesmo o rosto da mudança? Ou o regresso a uma visão ainda mais dura e palaciana? Pode até ser, aos 62 anos de idade, uma aposta para um mero modelo de transição para um outro futuro, no mandato seguinte. Ainda não se sabe; é cedo para essa reflexão. Mas nunca é tarde para lembrar que não faz sentido estar sempre a depositar a alma no medo. Pode ser pior; ou melhor; pode até nem ser nem uma coisa nem outra… até porque a estratégia que adotar, a missão que vier cumprir, na verdade não depende só dele; mas sobretudo da visão de quem decidiu que, nesta altura, seria ele o melhor para a implantar.
Esperemos para ver; toda a gente merece esse cheque em branco. Ho Iat Seng também o teve, e durante um tempo muito mais longo que o normal. O COVID, a luta contra uma pandemia, com fronteiras fechadas e a economia paralisada, prolongou o seu estado de graça que, como se verificou, foi mestre em rapidamente o delapidar. Mas há uma coisa muito estranha nesta cidade: encontro agora muitas vozes que esperavam e desesperavam pela substituição do Chefe do Executivo, e agora erguem as mãos aos céus porque, dizem, tudo pode ser igual… ou ainda pior. Pois pode; pode sempre. É essa, aliás, a própria natureza da mudança. Mas também pode ser melhor. Certo é que só pode ser melhor quando se muda o que está. E essa também é a essência e a legitimidade que a mudança encerra.
Macau precisa de Sam Hou Fai. Porque se é ele o escolhido, é dele que depende a missão que traz para cumprir. O que lhe desejo, nesta fase, é a melhor das sortes, para ele e para Macau. Porque é disso que todos precisamos. Mas também sei que se Pequim quiser fechar, em vez de abrir; Macau nada pode fazer. Nem este, nem nenhum outro CE seria capaz de o fazer. E essa é a natureza da política local. Não tem meios, know-how, nem capacidade negocial para conquistar seja o que for. Oxalá tenha capacidade de executar aquilo que faz sentido no desenho que Pequim insiste ter para Macau: diversificação económica, integração regional e plataforma lusófona. Acredito neste tripé; sempre acreditei. Mas, de facto, 25 anos depois, é preciso mais ação do que narrativa; é preciso mais coragem do que hesitação; é preciso perceber que, quanto mais tempo resistir a este futuro, menos preparada a cidade estará para o enfrentar.
Até prova em contrário, Sam Hou Fai está inocente da suspeita de que não será capaz de o fazer. Se fizer prova do contrário, chegará o dia desse julgamento. Mas não agora. Nesta altura, faz sentido apoiar a mudança; dar-lhe tempo e espaço para que se mostre capaz de ser melhor. No que pudermos – e soubermos – contribuindo para isso. Boa sorte, ao Chefe – e a todos nós.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA