Quem jogou Risco conhece a tentação. Olha-se para o mapa, junta-se um exército aqui, faz-se uma seta acolá, conquista-se um território com três dados felizes e, de repente, o mundo parece administrável a partir da mesa da sala. O problema é que o Estreito de Ormuz não é Kamchatka, nem o Oriente Médio, nem aquele território que ninguém queria até perceber que dava jeito para fechar o continente.
Trump publicou um mapa em que o Estreito de Ormuz surge identificado como “novo território dos Estados Unidos”. A imagem seria apenas caricata se não viesse de um Presidente em guerra com o Irão, pressionado pelo aumento dos preços dos combustíveis, pela impopularidade do conflito e pela necessidade política de apresentar uma vitória antes das eleições intercalares.
No Risco, quando a estratégia falha, ainda se pode culpar os dados. Na política internacional, é mais difícil. A guerra contra o Irão não trouxe a queda prometida do regime, não garantiu um acordo nuclear, não estabilizou o Golfo e não devolveu normalidade à circulação marítima. Perante isso, Trump parece ter encontrado uma solução muito sua: se não consegue controlar o estreito, redesenha o mapa.
Não basta escrever “território americano” para que o direito internacional, a geografia e a política regional desapareçam. E, sobretudo, não basta transformar uma crise em meme para resolver uma guerra
A piada acaba aí. O Estreito de Ormuz é uma das passagens marítimas mais sensíveis do mundo. Por ali circula uma parte essencial do petróleo e do gás que alimentam a economia global. Qualquer ameaça à navegação tem efeitos imediatos nos preços, nas cadeias de abastecimento e na vida de milhões de pessoas que nunca viram o estreito, mas pagam a gasolina, a eletricidade e os alimentos mais caros.
Declarar uma zona estratégica como “território” por publicação numa rede social não é uma política externa. É teatro com consequências. E o teatro torna-se mais perigoso quando serve para mascarar a falta de resultados. Uma coisa é garantir liberdade de navegação num corredor internacional. Outra, bem diferente, é insinuar posse sobre uma passagem partilhada por Estados, interesses regionais e normas internacionais.
Há também uma velha confusão imperial neste gesto: a ideia de que o mapa é a realidade. Não é. O mapa é apenas uma representação. A realidade inclui navios, minas, drones, militares, negociações falhadas, populações exaustas e aliados cada vez menos disponíveis para transformar cada improviso presidencial numa doutrina estratégica.
Trump gosta de apresentar a política como força bruta, gesto rápido e frase definitiva. Mas o mundo não funciona como um tabuleiro. Não basta circular uma zona com marcador para a possuir. Não basta escrever “território americano” para que o direito internacional, a geografia e a política regional desapareçam. E, sobretudo, não basta transformar uma crise em meme para resolver uma guerra.
O Estreito de Ormuz precisa de segurança, negociação e regras. Não precisa de fantasia cartográfica. Quando um líder confunde estratégia com encenação, o risco deixa de ser apenas o nome de um jogo. Passa a ser a condição em que todos ficamos.